
Uma das melhores notícias musicais do ano vem do Chile. Especificamente, de uma banda novíssima, que só possuía um álbum cheio até então (o bom Ahora o Nunca, de 2023).
Seu álbum novo, Deseo, Carne Y Voluntad, é um festival de sonoridades clássicas do indie, revisitadas. A conexão (clara, embora não definidora) com Black Country New Road e outras experiências gringas indie tornam o disco ainda mais interessante, especialmente quando os jovens do Chile abraçam suas próprias tradições melódicas e harmônicas. Desde o início notam-se os metais (sax e trompete) acompanhando riffs violentos – com uma dinâmica explosiva muito clara. Tumba, que parece ser o single do álbum, reflete toda essa descrição da melhor forma possível. Pelo clipe da canção podemos notar, também, que a temática católica* do álbum vai um pouco além dos aspectos superficiais (como o nome da banda, do álbum, e a capa).
O álbum possui canções brilhantes, que parecem se resolver sempre em partes diferentes (numa lógica meio prog-rock), como Angel, Haz de Mi e Tierra Maldita. Toda essa riqueza se refletiu em uma subida astronômica do disco nos charts do RYM. Dias depois do lançamento o álbum estava em #1 do ranking global (agora está na 6ª posição). Fato que estranhei enormemente, até descobrir duas coisas; 1. os chilenos pegam pesado no RYM; 2. o álbum parece botar no liquidificador uma série de (supostos) gêneros de predileção dos usuários daquele site: post-rock, post-prog, art-rock, e daí por diante. É uma espécie de “pós-tudo”, que só existe porque ninguém consegue (ainda) definir ao certo este novo indie que surge no mundo.
O que eu diria? É tipo BCNR. Mas é melhor porque é latino. É melhor porque sai da sisudez triste dos gringos, refletindo um certo imaginário messiânico-latino-americano, recheado de reflexões sobre a morte, o pecado e deus – que, segundo eles, está perdido na Estação Central de Santiago (como cantado na canção Pecado). É um puta álbum, de uma baita banda novíssima, com milhões de integrantes (acho que são 7, pelas minhas contas) e uma capacidade incrível de reproduzir ao vivo as estruturas complexas das canções. Esta apresentação (foda!) deixa isso tudo bem claro.
O ponto negativo aqui é o tamanho do disco. Com uma hora e quase 20 minutos de duração, trata-se de um disco imersivo, com uma influência bem evidente de rock progressivo e essa “mania” que o gênero tem de nos apresentar canções com 2, 3 “viradas” diferentes de clima. Em geral, Candelabro resolve isso muito bem, mas é um disco que às vezes pode cansar.
No mais, é uma excelente notícia vindo de nossos vizinhos. Já tenho acompanhado a cena de lá a algum tempo (tendo, inclusive, presenteado os Niños Del Cerro com o meu #1 de álbum do ano em 2022), e o país vive uma efervescência muito interessante de ser acompanhada. Os vizinhos trazem novidades, e é bom ficarmos de olhos e ouvidos bem atentos.
*Por falar em temática católica, este é o segundo álbum chileno de 2025 que eu conheço que trouxe isso. O outro é Alma Tadema, da minha querida Niños Del Cerro. Vai ver tem rolado uma tendência de trabalhos com essa temática, e o Lux, de Rosalía, não é acidental. Eu aposto largamente nisso.



