
Eu tenho a mania de sempre ouvir coisas novas tentando encontrar as influências ocultas. Nem sempre eu acerto, mas geralmente isso leva a um encadeamento importante para descortinar a obra musical.
Ao ouvir o maravilhoso Embalo Sísmico, de BAAPZ, pela primeira vez, percebi uma vibe meio Cidadão Instigado logo na segunda faixa, Clima/Tempo – talvez cortesia de uma frase “tremolada” de guitarra em fuzz na intro. Mas fui conversar com o artista e, para a minha surpresa, ele sequer conhece o projeto de Fernando Catatau. Errei, mas tinha alguma coisa ali. Fui olhar então suas influências declaradas: King Krule, Talking Heads, Sakamoto … ok, isso tudo se ouve no disco, mas ainda não é só por aí.
Deve haver algo na nossa própria tradição de canção pop que alimente esse genial rapaz de Juiz de Fora. Aí comecei a pensar: quem por aqui escreveu como BAAPZ, com seu humor ácido, às vezes desalentado, às vezes um tanto rebelde? Júlio Barroso, talvez. Mas, por outro lado, será que Barroso pudesse ter escrito algo como “Não vai dar pra engolir mercúrio de um termômetro digital”?
É difícil comparar BAAPZ com qualquer um por dois motivos: primeiramente, porque ele é muito original; e, depois, porque é muito contemporâneo. O desfortúnio de não saber se vai fazer calor ou frio em um só dia, nos extremos climáticos que vivemos, é muito atual. BAAPZ se mostra aí, e em outros tantos trechos, portanto, como uma espécie de cronista do capitalismo tardio. Um poeta ácido em vias de extinção, refugiado em um bunker criativo, escondendo-se da radiação.
Com uma destreza magistral, Pedro Baptista (o artista por trás do nome chamativo) cria uma espécie de reflexão sobre o fim do mundo, muitas vezes partindo dos eventos climáticos como metáforas para relações afetivas, como na brilhante Contato Glacial (Gelo) – canção que, basicamente, fala de tentar quebrar o gelo de uma crush. Em Granizo, o artista aborda o penhasco geracional se se expõe no mundo atualmente, em uma canção que traz participação de outra grande artista juiz-forana, a Grisa. E por aí vai, terminando tudo com Sufoco – canção em duas partes, que também traz outra artista da cidade para a roda, desta vez a talentosíssima Amélia do Carmo, que destaca-se à frente do grupo Varanda.
Musicalmente, o disco é de uma coragem absoluta. Passeia, realmente, por todas as referências que o próprio artista destaca. Mas, como eu proponho no início desse texto, há outras relações a se fazer. Tem algo de muito brasileiro em BAAPZ – e não me refiro aos “brasileirismos” estereotipados de tanta coisa por aí. Embalo Sísmico traz algo de Catatau, como já disse, mas também de Guilherme Arantes, Rita Lee (dos ’80). Talvez algo também do nosso pós-punk/new wave (Gang 90 vem à mente, novamente com o Barroso). BAAPZ não esconde que gosta de pop, mas o interpreta de uma forma muito alternativa. Meio “torta” e original.
O epítome de tudo isso talvez seja a canção Maré de Azar – disparado o maior clássico do disco, e que já possuía uma versão mais “light” lançada ano passado como single. É uma canção que parece divertida, mas que é na realidade muito triste, consideradas as superstições inócuas e inúteis diante de uma realidade maçante. No pré-refrão, BAAPZ arremata tudo isso: “Estou amaldiçoado, e não acho a minha cura”. Triste pra caralho. Mas também um alento de canção indie-pop. Com um refrão modular de complexidade harmônica bastante pronunciada, a canção ultrapassa a esquisitice. Para quem já está acostumado com as performances erráticas do rock alternativo, trata-se de uma canção quase clássica.
Mas eu sei, infelizmente que, dada a repercussão (quase nula) do disco de BAAPZ até aqui, sua proposta ainda está muito à frente daquilo que o (desconfigurado) Brasil de 2025 conseguirá assimilar. Em um ano de tantos candidatos mais glamourosos a AOTY, BAAPZ corre por fora. Mas nos entrega certamente o disco mais criativo, arriscado e mágico do ano para o rock brasileiro.
Para arrematar, é importante citar que Juiz de Fora, bem representada pelas participações do disco (inclusive na masterização de André Medeiros, responsável também pela mixagem e masterização do disco novo da godofredo), traz hoje uma das cenas mais férteis e criativas do Brasil. O que reforça algo que sempre defendemos por aqui: é de fora do eixo que, geralmente, surgem as nossas produções mais impressionantes.



