O triste fim da música

Adeus, Brian.

Ele se foi.

“O arquiteto do pop”, disse a Rolling Stone. Foi muito mais do que isso. Até porque o pop, que nos anos ’60 derivou de obras perfeitas como Be My Baby para culminar nas experiências de Wilson, tomou outros rumos lá pelos ’80. Eu tenho a hipótese de que quem realmente adotou o legado de Brian Wilson foram os múltiplos nichos do alternativo. De Big Star, ainda nos anos 70, a Animal Collective, Beach House ou Big Thief, mais recentemente.

A verdade é que, como nosso Márcio disse, tudo o que ouvimos hoje deve muito à Brian. Da perfeição das harmonias e paredes de Pet Sounds aos delírios inacabados de SMiLE. Da perfeição neurótica à loucura processual – tem como não ficar louco fazendo música neste mundo? Eu não faria música até hoje não fosse por esse cara. Dá um engasgo, uma coisa ruim. Demorei pra caralho pra conseguir ouvir sua voz depois da notícia. Foi complicado abrir esse rascunho pra escrever um texto. Mas aqui estamos.

O que aprofunda o engasgo é que Brian talvez seja o cérebro (e o coração) de toda uma geração que se despede de nós – e com ela, a história da música popular do século XX, que definiu o que ouvimos até hoje. Em uma só semana, Brian Wilson e Sly Stone. Antes deles, Erasmo e Rita Lee. Voltando mais um pouco podemos lembrar de Prince, Bowie. George Martin já se foi, assim como metade dos Beatles. Da formação original do Kraftwerk, apenas Ralf Hütter permanece. É um século inteiro que se vai aos poucos. Pouca gente discorda que, de todos estes, Brian foi o mais brilhante. O gênio total. O ouvido absoluto, capaz de, praticamente sozinho, mesclar composição, produção, arranjos e mixagem em um conjunto o tempo todo criativo, meticuloso e perfeito.

Assim como a morte de Godard para mim teve o gosto amargo do “fim do cinema”, a ida de Brian tem o gosto amargo do “fim da música”. Mas não é o fim da forma de arte, literalmente. É o fim de uma ideia de música. De uma filosofia, de uma forma de se fazer e pensar a arte musical. Nosso século ainda carece das ideias que serão definidoras. Os pilares, um a um, vão nos deixando. E o que fazer quando as bases se desmontam? Estudar com muita atenção a história, para avançarmos.

É uma despedida, mas não é o fim. E como poderia ser, quando aquilo que Brian nos deixou é tão eterno? Pra encerrar essa despedida, vale até lembrar como tudo começou pra mim.

Era uma tarde qualquer, de um dia de escola qualquer. Eu dei play em uma cópia em CD do Pet Sounds no meu discman – cópia que tenho até hoje, por sinal. Quando chegou em God Only Knows, algo inédito aconteceu. Meu corpo arrepiou inteiro, e comecei a chorar. Isso nunca havia acontecido comigo antes, e raras vezes aconteceu depois. Mas o fato é que toda vez que ouço essa canção (e tantas outras de Brian) meu corpo responde de formas inesperadas. Já tentei explicar. Já “desmontei” as canções, as notas, os arranjos, as harmonias. Já desnudei tudo, e continuo sem conseguir explicar.

A experiência de Brian Wilson, e de nosso contato com a arte dele é, como alguns já disseram, o mais próximo que podemos chegar, sem religião ou culto, de uma experiência espiritual.

Eu que não acredito em deus, e nunca acreditei, acredito piamente em Brian Wilson, e na força transcendental daquilo que ele criou. A música nunca mais foi a mesma depois de Brian. E nunca mais será a mesma sem Brian.