
O Silêncio no Estúdio praticamente nasceu a partir de um questionamento fundamental: como ouvimos música hoje? Bruno Leo, com sua perspicácia de sempre, fez lá atrás, em 2018, uma pergunta que me persegue até hoje: “onde estão minhas músicas?”.
A gente escrutinou, a partir disso (em textos, podcasts, etc, etc), os novos hábitos de escuta musical. Mas as coisas só pioram, ano a ano.
As plataformas não apenas redesenharam a escuta, mas alteraram a própria ideia de música em sua dimensão mais fundamental. E mesmo a gente aqui, que sempre defende a escuta atenta, as listas, as mídias físicas e os espaços coletivos de compartilhamento da experiência musical, está sujeito aos hábitos restritivos e enclausurantes das plataformas.
Diante das nossas listas de fim de ano (que começamos a fazer em 2018), eu consegui recuperar um hábito que comecei pelos idos de 2007: o de sempre adquirir mídias físicas dos meus álbuns favoritos do ano. Até 2021, mais ou menos, consegui fazer isso. Tenho aqui, por exemplo, o New Long Leg do Dry Cleaning em CD – meu disco favorito daquele ano. Mas vocês sabem o que aconteceu de lá pra cá, né? A pandemia fudeu a cadeia global de valor. Os preços (até dos CDs) foram parar nas alturas. Hoje, para eu adquirir, digamos, o Diamond Jubilee, da Cindy Lee (meu disco favorito da década, simplesmente) isso me custaria pelo menos 200 mangos. Não, eu não tenho essa grana sobrando. E não tô fazendo cosplay de pobre ao afirmar isso.
Diante dessa palhaçada, a imposição da plataformização segue firme. Os discos vão saindo, eu vou “salvando-os” na biblioteca digital da “minha plataforma favorita” (que na realidade não é favorita, é apenas a única que eu consigo suportar). Salvo as coisas também na wishlist do Bandcamp, sem nunca conseguir comprar quase nada. E segue tudo ali: preso nas bibliotecas virtuais. O Bandcamp, inclusive, que eu promovo tanto como alternativa viável, acaba funcionando também como plataforma. Você só salva discos e os reproduz em streaming. Para qualquer coisa além disso, é necessário comprar os álbuns. E tá certo pagar pela música que você ama (sempre defenderei isso, como músico também). Mas quem é que tá dando conta de manter bibliotecas pagas em pleno 2026?
Existem heróis e heroínas que estão voltando a baixar músicas (pagas ou não) e colocando-as em seus novos mp3 players (Márin, essa é pra você, querida). Eu provavelmente retomarei esse hábito assim que deixar de estar tão pobre. Mas o ponto aqui é que: não é sustentável manter esse hábito quando, supostamente, há tanta coisa para ser ouvida. Neste aspecto, teremos que seguir descobrindo música pelas formas mais diversas (e via plataformas) para ao menos conseguirmos executar filtragens viáveis, confiando em nossos curadores, mídias e amigos assertivos (aqueles que mandam um: “você vai AMAR isso”, e você acaba, realmente, amando).
Voltando à lama da plataformização, termino com um breve relato dos últimos dias; depois de um hiato da audição musical em função da Copa do Mundo (respeitem meu hiperfoco), quando finalmente me voltei aos lançamentos “perdidos”, notei que estão todos lá trancafiados digitalmente na minha biblioteca do Music e do Bandcamp. Sabe qual a vontade que estou de “recuperar o tempo perdido”? Essa mesmo. Nenhuma.
Fui fazer um levantamento (só à título de curiosidade mesmo) e vi que, dos últimos 180 dias (6 meses, para os leigos em matemática), eu ouvi pouco mais do que 25 discos. Vários em CD, outros em vinil, o resto no Bandcamp. Poucos lançamentos. Alguns clássicos que amo e preciso revisitar, e pouquíssimas novidades excitantes.
Mas eu sei que elas estão por aí, e que eu vou superar meu asco e encarar as bibliotecas digitais pra ouvir as músicas incríveis de 2026.
Por ora, só gostaria de compartilhar que a plataformização é um câncer. Um encarceramento em hábitos que ninguém pediu pra adquirir. Um processo que retira nossa agência, e que nos submete ao mediador (a plataforma) mais do que ao objeto que ele se propõe a mediar – nesse caso a música, mas poderia ser a comida, a compra, o contato humano, o transporte, etc, etc.
Hoje, resta sonhar com o momento em que ouvir um álbum novo não passe por tirar um smartphone do bolso no meio da rua. E o faremos. Novos hábitos, mais saudáveis e respeitosos à própria música, surgirão das nossas mentes.
Porque, no fim das contas, nós amamos demais a música, não é verdade?



