
“I ain’t fuckin’ with the NFL or JAY-Z / Propaganda for the military complex“
Em 2023, a brilhante rapper socialista Noname canetou essa. Agora, no último grande vazamento dos “Epstein Files“, um projeto fica visível. O banqueiro Jes Staley orienta o criminoso por e-mail que “assista os anúncios de TV no Super Bowl. É tudo sobre caras negros descolados em carros descolados com mulheres brancas. O grupo que deveria estar nas ruas foi comprado. Por Jay Z“. Quem não acredita em mim pode ver o e-mail com os próprios olhos:

Pode parecer que essas relações são diretas demais, mas é assim que funciona “comprar” revolta social sob o capitalismo. Os capitalistas sabem muito bem disso. Só que, às vezes, quem deveria saber realmente (a esquerda), se esquece, se confunde ou, simplesmente, já foi tão assimilada que sequer consegue enxergar. O e-mail do banqueiro para o pedófilo assassino é de 2014. A comunidade negra americana se levantava contra os abusos violentos do estado, angariando inclusive o apoio de algumas celebridades (Colin Kaepernick, jogador da NFL, se tornou um símbolo disso tempos depois). Mas já estava tudo comprado. A direção artística da NFL, agregando artistas negros icônicos um atrás do outro (todos eles são nomeados na canção de Noname, incluindo o Kendrick), normalizava tudo. O espetáculo fazia as vezes da revolução.
Enorme ps.- se até hoje esse conceito está nebuloso para alguns leitores, procurem “Realismo Capitalista”, de Mark Fisher. Trata-se de um livro curto, simples, direto e que desenha o conceito de uma forma muitíssimo clara. Eu sempre revelo as dimensões práticas deste conceito. Que é muito, mas muito assertivo e atual.
Agora é a vez da comunidade latina. A mira preferencial do regime fascista de Trump com sua milícia especializada (ICE). Não à toa, é Bad Bunny quem comanda o espetáculo na NFL. Nada contra o cara. Em termos de reconhecimento, é merecidíssimo. Bunny é talentoso, carismático, e representa uma cultura latina fortíssima mundialmente (a do reggaeton). Eu disse: representa. Ele não é esta cultura, mas sua reificação. Por mais que sua música soe tão original, ela apenas soa – não o é. Quem anda pelos recônditos do gênero há muito tempo sabe disso (Motomami foi a versão europeia e feminina dessa reificação … lembrem-se também). Mas nada disso é sobre os artistas. É sobre o mecanismo. Bad Bunny é o artista mais reproduzido no Spotify mundialmente em 2025 (com mais de 19 bilhões de plays), é ganhador de Grammy e, agora, superestrela internacional de uma das maiores armas de softpower dos EUA.
Até aí tudo certo. Nada disso é o problema. O problema é ainda caírmos na jogadinha. Eu juro que teve gente, no dia da apresentação, falando em “revolução”. Mas teve coisa ainda mais constrangedora (por sua dimensão objetiva), como isso daqui:

Foi até comum caírem no “argumento americano” do Bunny, quando este destacou que a América não são só os Estados Unidos. Não foi exatamente isso que Brunno Lopez fez por aqui outro dia (ele apenas celebrou este fato, lembrado pelo Bunny). O problema, Brunno, e todos que me lêem, é que isso não chega a ser bem um fato. A América é sim só os Estados Unidos. O resto do continente é, como Trump gosta de lembrar, seu quintal. E toda a “operação Bad Bunny” é, infelizmente, um reforço disso.
Sei que tem muita gente que vai curtir, e eu sinceramente não gostaria de constranger nenhum de vocês. Sei também que tem muito brasileiro que gosta da bola oval, e do Bad Bunny (deste até eu gosto). Mas achar que tem algo de transformador, importante ou revolucionário ali é estupidez. Outra estupidez é, sem dúvida nenhuma, acreditar que o futebol americano, mesmo com a Globo por trás, poderá entrar aqui sem estranhamento e até um tanto de revolta. Graças a Diós, como diz o meme, nací en latinoamerica, o que ainda produz fenômenos como este:

Por mais colonizado que a gente seja, do neopentecostalismo protestante radical ao binge watch constrangedor de série americana mediana, é necessário impor alguns limites. Os meus estão claros.
E, revolução mesmo, essa a gente vai precisar fazer (pelo andar da carruagem). Mas, definitivamente, ela não poderá ser televisionada.



