É preciso admitir que temos um problema

Para onde vai o jornalismo musical brasileiro?

Independente do que consideramos “música popular brasileira”, estes 25 álbuns definem a nossa música este século? Pior é que eu acho que sim.

Se você der uma olhada pelas listas de melhores do ano dos principais sites brasileiros de música nos últimos anos, encontrará uma variedade limitada de categorias* – isso para não usar o famigerado termo gênero.

  • Temos aquela “nova” MPB, que é basicamente uma MPB com eternos ecos da Tropicália, acento setentista e as referências básicas de sempre. O que garante o “novo” aqui geralmente são alguns elementos eletrônicos, ou, no máximo, o clima desconstruído que só pinta realmente quando o Dinucci lança algo (ou Negro Leo, ou alguém mais nessa linha). Existem também os artistas aqui que começam com bandas/projetos mais fincados no rock, mas que acabam batendo continência à ideia de MPB (Los Hermanos são a verdadeira matriz disso). Essa é a primeira categoria.
  • Também há um certo indie, que se fia no rock, mas geralmente decai nos acenos à categoria descrita acima, com vocais letárgicos e preguiçosos. Este campo é um pouco mais amplo, porque recentemente tem se diversificado, abrangendo bandas que trafegam por um pós-punk (também com os vocais letárgicos) e que ecoam tendências gringas de 2, 3 anos antes. Estas bandas, curiosamente, fazem parte de um mesmo círculo, ligadas a um selo específico. Essa é a segunda categoria, e de espectro mais amplo e mutável – afinal, pegando a imagem acima temos por exemplo o CSS (comentarei sobre a imagem à frente), que fugiu à regra por ser uma banda totalmente adequada ao estilo do seu tempo: o eletroclash circa 2005.
  • Há também um caminho ligado à música eletrônica, que vai do hip hop ao tecnobrega. Este caminho é o mais inventivo, pois trabalha estilos regionais, conectando-os a tendências eletrônicas gringas contemporâneas. É um caminho de maior experimentação, que talvez represente melhor os ouvintes mais inquietos (como eu). Essa é a terceira categoria – difícil de se delimitar, mas que vai da (recém “redescoberta”) Tati Quebra Barraco ao Crizin da Z.O (mas não para por aí).
  • O último caminho é o de bandas e artistas que exploram gêneros nacionais tradicionais: Samba, pagode, forró, piseiro … Este universo é o menos explorado pelo jornalismo musical, por motivos óbvios. Há uma diferenciação, feita pela nossa crítica (se é que esse termo ainda cabe), entre o “popularzão” e o “popular artístico”. Essa é a quarta categoria.

*É necessário apontar que todas essas categorias (em especial a primeira, que é de fato a dominante) prestam reverência a certas tradições não da música brasileira em sua diversidade, mas àquilo que se convencionou chamar de MPB. Termo (gênero?) que ninguém consegue definir, mas que todo mundo sabe muito bem a quem se aplica.

Todo este levantamento, feito após um trabalho exaustivo de observação e audição, nos leva a algumas conclusões. E todas elas são reforçadas por um artigo recente no g1, do competente jornalista Mauro Ferreira. Ele preparou uma lista dos 25 álbuns mais influentes da música popular brasileira deste século (a montagem dos álbuns que ilustra o post foi tirada da matéria de referência). E a lista, apesar de me desagradar profundamente, é coerente. Isso porque seu critério ali esteve bem claro: “Não, não se trata de uma lista de “melhores” discos deste quarto de século, tampouco dos discos preferidos deste colunista e crítico musical, mas de uma relação de álbuns influentes que apontaram sons e caminhos seguidos por outros artistas.”. Se pensarmos nestes parâmetros de influência e caminhos abertos para outros artistas, estas talvez sejam realmente as escolhas mais adequadas. Infelizmente.

Digo isso porque é possível identificar na lista do Mauro (e isso é algo que se reflete nas listas dos sites, ano a ano, especialmente no topo delas), exatamente as categorias que identifiquei logo acima. Não há espaço para o que eu chamo de underground. Não há bandas um pouco abaixo do radar. Não existem Boogarins, Supercordas, Hurtmold, Macaco Bong, Violins, The Cigarrettes, Jair Naves, Lupe de Lupe. Simplesmente não existe nada de mais … alternativo (por falta de melhor definição) – apesar de todos estes artistas citados (e muitos outros) serem profundamente influentes nos círculos underground.

E aqui cabe uma reflexão importante. Sempre que se mencionam críticas como a minha, aparecem milhões de “advogados” dos artistas incensados pela nossa crítica, defendendo o fato de que eles são independentes. Independentes de fato são. Se pegarmos as listas de 25 ou 50 melhores álbuns de 2025 dos principais portais, veremos poucos artistas efetivamente bancados por gravadoras. Mas dificilmente veremos também algum artista que não tenha: ou um selo; ou um PR muito competente; ou recurso para investir em mídia paga, produtos físicos, etc; ou um empresário ou “padrinho” abdicado; ou tudo isso junto. O que, automaticamente, para qualquer pessoa sensata, já indica que há uma diferença muito grande hoje em dia entre ser independente e ser underground. O underground não tem nada disso, ou tem membros das próprias bandas que acumulam muito porcamente todas estas funções.

Há que se definir os degraus.

É evidente que existe um mainstream no Brasil, e que este não se mistura com os “independentes das listas”. O nosso mainstream é muito bem delimitado por artistas de massa, como Anitta, Ludmilla, Iza, Henrique & Juliano, Jorge e Mateus (e mais um tanto de outras duplas sertanejas), Luisa Sonza, e por aí vai – entram nessa lista no máximo alguns trappers, funkeiros e/ou rappers de sucesso gigantesco em nichos, naquele fenômeno tipicamente contemporâneo dos artistas “de massa” que são, paradoxalmente, “de nichos”. Este é o mainstream. Os “independentes das listas”, como tenho chamado neste texto, residem em outro lugar. Em uma espécie de “mainstream da crítica”. E, a julgar pela falta de variedade deste lugar, é seguro afirmarmos que temos algum problema com a nossa crítica.

Os motivos e implicações disso tudo são matéria para investigação mais profunda, em outros textos. Mas acho seguro dizer que este “mainstream da crítica” é construído por um círculo muito vicioso. Apesar da proliferação atual de sites de música, poucos deles efetivamente possuem estrutura para fazer uma cobertura cuidadosa dos lançamentos nacionais. Atolados por uma enxurrada de coisas, e apertados pelas necessidades financeiras adversas, estes sites possuem poucos jornalistas, que trabalham de forma surreal. A replicação de ideias, conceitos, e mesmo de gostos, de um portal para outro, passam a ser visíveis, em função de todas as condições desfavoráveis.

O resultado é a morte do espaço crítico. Poucas mídias conseguem efetivamente produzir resenhas ou textos críticos sobre os álbuns. Quando muito, temos resenhas interessantes ou entrevistas, nos heroicos Pop Fantasma ou no Scream & Yell, e algumas outras notas e textos pingados em demais lugares. Falta muito. Mas eu acho que faltam, sobretudo, mídias dedicadas especialmente ao underground.

Não estamos mais na era de mídias massivas, como a revista Bizz, que dedicava a capa e as principais matérias aos “carros chefe” da indústria fonográfica, mas também conseguia abrir espaço para as bandas minúsculas. Por outro lado estamos na era de mídias que podem se dar ao luxo de serem exclusivamente voltadas àquilo que não tem vez em lugar nenhum. Pois, como eu tenho dito exaustivamente, os feeds destas redes sociais que nos sequestraram parecem embolar tudo*. Embaralhar as categorias e nivelar os degraus. Só parecem. Continuam existindo hierarquias, e a crítica é o único antídoto historicamente responsável por questionar as hierarquias, e desnudar os reis.

Continua …

*Há uma reflexão importante a ser feita, sobre o que ando chamando de “Realismo Pop”. Escrevi um texto recente sobre isso, e pretendo seguir investigando.