
Esses dias (09/03), um dos “erros” mais deliciosos da história da música completou 57 anos de gravação. Sim, falo do Philosophy Of The World, da americana The Shaggs. E falo de erro por força do hábito. Se esse disco for um erro, é um erro que deu imensamente certo.
Não preciso gastar o tempo de vocês contando pela milionésima vez a história de como as irmãs Wiggin, levadas pela teimosia (ou premonição) de seu pai, ensaiaram, ensaiaram, ensaiaram, e gravaram o disco mais torto da história do rock até então. E aí entra o que eu acho que é um dos maiores equívocos de todos ao analisarem essa obra.
Todo mundo julga que o resultado é aquele porque as irmãs não sabiam tocar. Isso pode até ser verdade de um ponto de vista tecnicista. Mas a questão é que, de uma forma ou de outra, elas sabiam, sim, tocar. Quando se ouve o disco pela milésima vez como eu fiz hoje, dá pra perceber que os padrões que elas acessam fazem parte de uma lógica interna. É isso que explica o fato (repetido à exaustão de forma folclórica) de que elas paravam às vezes para se corrigir nas gravações. Ou seja, havia uma lógica.
Ouçam as primeiras faixas do álbum com atenção: dá sempre pra perceber a guitarra solo “dobrando” a melodia vocal. Se as guitarras “atravessam” a bateria, é porque as músicas foram compostas e tocadas daquele jeito. Elas acertavam no desconjuntar das coisas, e produziram, com isso, um resultado histórico. Coroando uma década que, como todos sabem, foi marcada pela ascensão do rock como a linguagem musical hegemônica. Do mesmo ano de Trout Mask Replica, de Captain Beefheart (outro grande marco do rock “errado”), Philosophy Of The World se mantém de pé como um dos grandes pilares daquilo que chamamos de rock alternativo – um dos álbuns que mergulharam (por bem ou por mal) na linguagem do rock e a viraram de cabeça pra baixo.
Nem vou me estender, porque essa é uma longa tese, que eu e o Christian Bravo já descortinamos neste longínquo episódio do nosso (aposentado) podcast. Por ora, cabe a homenagem a um dos únicos álbuns que sempre que eu ouço conseguem me surpreender (mesmo depois de centenas de audições).
Termino com o que disse no nosso grupo de apoiadores, sobre My Pal Foot Foot (uma das grandes canções desse disco): essa música é um paradigma, porque ninguém consegue tocá-la. E isso se estende a todo o álbum, na verdade. Sigamos maravilhados, incomodados e intrigados com o desafio monumental e misterioso das mentes malucas das irmãs Wiggin.



