Eu nunca gostei de Pink Floyd

Que que eu posso fazer?

Este semestre na disciplina “Clube do Disco” os encontros continuam, mas em um novo formato. Agora algum dos alunos sugere um álbum, e nós o ouvimos juntos na aula seguinte. Eu instruo a turma a fazer o que cada um sentir na hora da audição coletiva; sair andado, fazer air drums, anotar coisas, desenhar. Às vezes eu não faço nenhuma dessas coisas. Às vezes todas. Desta vez, como já conhecia o disco indicado e queria desafiar meu próprio gosto (as audições são muito pra isso também) resolvi tomar notas*. O que se segue é a transcrição das notas que fiz. Afinal, nem por um milhão de dólares acho que eu resenharia The Dark Side Of The Moon a sério.

(começa o disco)

“Porra, não dá pra ouvir o coração. Alguém chama o desfibrilador, pô”.

(sigo ouvindo, passando pelos helicópterozinhos)

“É … é chato mesmo. Quantos solos de guitarra tem em Time?”

(segue o disco)

“Acho que as partes melódicas, até em Time, são bem singelas. The Great Gig é linda. On The Run é um interlúdio de krautrock – ai que vontade de ouvir Can e Neu!“.

(segue)

Money é detestável. Até solo de sax a música tem … que porra! O refrão é de um rock’n’roll clássico – então era tudo mentira”.

(segue … anota a seguir pra lembrar de falar no debate)

“O que me mata é tudo ser tão explicito. Time começa com os relógios, Money a caixa registradora. Duuuur. É tudo muito na cara”.

(respira fundo)

Us and Them é foda. Mas tem solo de sax. Eu odeio sax, seus gringos burros**”.

(quase acabando, respira)

Brain Damage é beeeem Beatles. Kinks talvez. Tem algo de ‘canção inglesa’ aí. Gosto dessa”.

(lembra de falar no debate)

“Eu acho que Pink Floyd é uma banda eternamente atormentada pela ausência. Daí Wish You Where Here depois, e essa palhaçada de marketing das capas pretas com a descrição. Daí também este Dark Side. Eles estão sempre buscando o brilhantismo magnânimo, raro e inalcançável, do Barrett. Nunca alcançarão”.

Acabou. O coração parou de bater. O cara morreu. Palmas.

* Este também é o “para casa” de todo mundo: anotar os sentimentos mais imediatos que a obra despertou. Para que tentemos capturar a essência do disco (mas também da escuta) bem no “calor” do momento.

** “Diga a este gringo que ele é burro” – Gilberto, João (sobre Stan Getz).