Os Beatles de sua geração? – Sim.

Wowee Zowee é o melhor álbum do Pavement. E ninguém me convencerá do contrário.

Só existem coisas polêmicas que podem ser ditas a respeito de Wowee Zowee, terceiro álbum do Pavement. Não há muito meio termo mesmo.

Lançado depois do “sucesso” de Crooked Rain, Crooked Rain (e do “quase hit” Cut Your Hair), Wowee Zowee não seguia aquela linha. Ao contrário, parecia fazer questão de confundir. Na página de Bandcamp da banda há uma frase que resume o aspecto controverso do álbum: “‘Wowee Zowee‘ confundiu os críticos e alienou os fãs”. Bom, mais dividiu a fanbase do que a alienou. Há, dentre os fanáticos pela banda como eu, os que achem o disco um enorme parêntesis “experimental” que divide sua carreira ao meio, e há os que achem que trata-se, simplesmente, do melhor álbum da banda. Me encontro nessa segunda categoria.

E vou além, invocando também a confirmação de terceiros. Há um texto bastante polêmico da Pitchfork que, para falar de Terror Twilight (último e pior disco da banda, indubitavelmente), invoca uma comparação meio exagerada. E já começa assim: “Pode ser uma hipérbole dizer que Pavement foram os Beatles de sua geração. Mas eles meio que foram”. O argumento é forte. Ambas as bandas tiveram uma carreira que percorreu uma década (do início ao fim), e tiveram etapas de amadurecimento similares, com importantes marcos em momentos análogos do percurso. Se Terror Twilight está para o Let It Be (a culminação acidentalmente pomposa e “fechada” de uma carreira aberta e livre*), Wowee Zowee está para o White Album; caótico, eclético, experimental, sem amarras.

É bem por aí que vejo esse disco – e que hoje o guardo como meu preferido da banda, como guardo o White Album como o meu preferido dos Beatles. Para mim, Rattled By The Rush é épica e densa como Dear Prudence; Black Out ácida (e ao mesmo tempo lindíssima) como Glass Onion, e por aí vai. Wowee Zowee tem os “erros” perfeitos. As canções pela metade, os interlúdios ridículos (como Serpentine Pad), etc. Os dois álbuns (já que eu me afundei agora na analogia) parecem correr os mesmos riscos. Claro que de maneiras absolutamente diferentes. Wowee Zowee, apesar de grande, não chega a ser duplo. Não chega a ser tão experimental a ponto de ter uma “não-canção” como Revolution 9. Mas, cá entre nós, o que seria Grave Architecture? Pavement é a única banda que pode fazer uma canção ridícula como essa e sair ilesa – até porque, quando se para pra prestar atenção, a música é bem amarrada harmônica e até melodicamente.

Há espaço, no disco, é claro, para clássicos que atravessam a discografia da banda como destaques supremos, como Rattled By The Rush e Grounded (essa até hoje uma das favoritas dos fãs). Mas Wowee Zowee não é sobre consistência, clássicos, ou grandes declarações. É a epítome de uma banda que soube ser importante e influente sem nunca se deixar levar por nada ou ninguém. Wowee é tão incrível porque é um disco atinge uma enorme seriedade sem se levar a sério – e parece se levar ainda menos a sério do que os dois álbuns anteriores da banda, que já carregavam essa “vibe”.

Estou com esse disco até o fim. E, já que sua repercussão é sempre envolta em controvérsias, aqui vai mais uma: não achar que Wowee Zowee é o melhor álbum do Pavement é ter paladar infantil para a banda.

*Embora ousada, a analogia entre as bandas é tão impressionante que atinge até a produção de ambos os seus discos finais (Let It Be e Terror Twilight). A essa altura todos já entenderam o quanto os Beatles descaracterizaram seu som ao chamarem Phil Spector para produzir o disco. O mesmo aconteceu com Pavement, que convocaram Nigel Godrich para a produção de seu trabalho derradeiro. Ambos os produtores “aveludaram” demais o som das bandas, a ponto de descaracterizá-lo. Seria interessante ouvir, daqui a algum tempo, uma versão “naked” do Twilight, assim como podemos ouvir, hoje, uma versão dessas do Let It Be – Bruno já escreveu sobre essa versão aqui.