Acreditem no hype

Tem uma bomba no meu carro. E ela se chama Geese.

O ano é 2025 e ele já caminha para sua reta final. Ao que tudo indica, o “melhor do ano” a ser coroado pelas publicações é alguma coqueluche pop ou, na melhor das hipóteses, um R&B autoral. Até que, no dia 26 de setembro, uma banda (até então) relativamente desconhecida de Nova Iorque lança seu 3º álbum. No dia seguinte, fazem uma apresentação no meio da rua, lotando um quarteirão inteiro (até perder de vista). Jovens no Twitter começam a surtar, dizendo coisas como essas. Ou essas. Frequentemente, soltam memes como estes. E assim vai, até o hype tomar uma forma assustadora no intervalo de dois dias.

Vejo todos esses sinais, e mais um pouco, a partir das apresentações ao vivo: as músicas são fortemente conduzidas pela bateria, no melhor estilo Jaki Liebezeit (Can), os baixos meio em loop (como seria de se esperar, na cozinha), guitarras ensandecidas e um garoto de cabelo ensebado, pose blasé e range vocal impressionante à frente de tudo. Penso: não é só hype. Tem algo aí.

Como a gente (aqui no SNE) deveria saber melhor, resolvo, antes de visitar a repercussão crítica, ouvir o disco, uma vez que amei demais o álbum solo do Cameron Winter, vocalista da banda (o tal garoto do cabelo ensebado). Morri no primeiro play. There’s a bomb in my car, é simplesmente o primeiro refrão. A métrica é desconjuntada, meio Dylan, meio Avey Tare. Eles estão atrás de algo, e à frente de outras coisas. Musicalmente, Getting Killed, da banda Geese, é a culminação de um monte de coisas que andam “esquentando” nos últimos anos. O que inclui Black Country, New Road, Black Midi, Dry Cleaning, Water From Your Eyes, Wednesday, e muitas outras bandas.

Getting Killed lembra tudo isso, e nada disso. E isso está na produção, mas também na performance e na mixagem e masterização. O disco tem uma dinâmica incomum para tempos de streaming (e é, por isso, uma merda de se ouvir no streaming). As músicas começam baixas e sobem de volume – o Márcio já destacou essa faceta em seu texto anteontem. Às vezes abaixam de volume no meio. A gravação tem, enfim, muita dinâmica, o que sugere um disco gravado ao vivo, com overdubs. Nenhuma novidade aí (isso é algo que a precursora Big Thief já tem feito a algum tempo). Mas o conjunto, em Geese, soa muito absurdo. Chega a soar novo.

Concluindo duas audições completamente empolgadas, resolvo ler as críticas. 10/10 na Paste. 9/10 na Pitchfork. 10/10 na NME e Consequence Of Sound.

É, galera. Temos um fenômeno. E, finalmente, um fenômeno genuinamente alternativo pra chamar de nosso – em uma rara união, diga-se, entre crítica e público alternativo.

Fenômeno já testado por mim, na segunda-feira, na eletiva “Clube do Disco”. Estávamos passeando pela música contemporânea, analisando os últimos anos e suas respectivas febres (incluindo a febre Brat, de 2024). Passei para a turma o clipe de Taxes. Um dos alunos, o Nico, disse que “tem algo da depressão geracional aí”. Eu não posso discordar. E, como eu posso até ficar velho, mas sem nunca perder a conexão com os novos marcos geracionais, tenho a obrigação de engrossar o hype: Getting Killed, do Geese, é isso tudo.

Podem se enfiar de cabeça.