A web é um cadáver que nos sorri

Às vezes a gente erra. Na web, com mais frequência do que o normal. O importante é admitir os erros e seguir em frente.

Nos anos ’90, o fotógrafo Oliviero Toscani comandou a publicidade da Benetton, com uma série de fotografias (supostamente) chocantes. Na realidade, olhando um pouco pra atrás pra olharmos o contexto atual, as imagens de Toscani provavelmente chocariam muito mais hoje em dia – correndo risco, inclusive, de serem deletadas das redes sociais, ou de incentivarem protestos de “pais preocupados” e coisas do tipo. Vivemos as trevas, afinal.

Mas o que importa aqui nem é isso. Eu vim, afinal, falar de música. E foi pensando sobre música (coisa que faço 24/7) que me detive sobre a influência decisiva de Toscani que, além de ter proposto a tal campanha “chocante”, também escreveu um livro, em 1996, chamado “A publicidade é um cadáver que nos sorri”. De fato, àquela altura a publicidade já tinha desistido. Há muito tempo ela já não servia para “vender mercadorias”. Nem mesmo só no discurso porque a publicidade, afinal, nunca foi só sobre isso.

Corta pra hoje, e a sensação é que que a publicidade morreu de fato (apesar da sensação de onipresença que ela ainda produz em nós). Foi substituída pelo “conteúdo”– que é, basicamente, qualquer coisa que se encaixe no template de um post de rede social, e que “venda mercadorias” como um acessório (uma espécie de cacoete marketeiro “enfiado” de qualquer maneira em feeds de influenciadores). Mesmo este formato também já parece morto. Como toda a web. Como tenho dito, ela virou este oceano de esgoto de orientações de inteligências artificiais e algoritmos preditivos que, ao invés de nos auxiliarem com tarefas manuais, automáticas e enfadonhas, nos ajudam a aposentar nossos cérebros e reduzir o pensamento a comandos fisiológicos básicos.

Mesmo quando a web parece ser um local de reverberação social importante para a cultura, é necessário filtrar a merda que boia no esgoto virtual para se chegar a algum lugar. É o que tentamos fazer todos os anos no nosso levantamento de “Melhores do Ano”, onde cada ser humano de carne e osso que integra o Silêncio no Estúdio procura trazer a melhor curadoria possível para o seu público. Mas agora vou falar por mim: nem sempre eu consigo ficar imune ao esgoto virtual. Algumas das minhas decisões de “melhores” nos últimos anos foram influenciadas (infelizmente) ou por repulsa a alguns hypes que considerei exagerados, ou por adesão (exagerada, da minha parte) a outros hypes. Nada como o tempo para nos fazer refletir sobre as más escolhas.

De todas elas vou destacar só algumas agora, para o texto não ficar muito longo. A pior, sem sombra de dúvidas, foi minha escolha de Norman Fucking Rockwell como “disco do ano” em 2019. Não que eu ache o disco ruim. Pelo contrário – ele envelheceu até muito bem. Mas nunca, em nenhuma circunstância cabível, o “disco do ano” de 2019 para mim poderia ser qualquer um que não fosse o U.F.O.F, do Big Thief. Fui tomado pelo hype do NFR. Era um disco (finalmente) perfeito de uma artista já consagrada do pop contemporâneo e pensei, à época, em sair um pouco da minha zona de conforto para premiá-lo. Bobagem.

Outra enorme bobagem, desta vez por duvidar do hype, cometi ano passado. Tomado por uma extrema birra, e talvez pelo medo de supervalorizar um trabalho que não é tanto do meu universo, eu deixei o Brat de Charli XCX passar um pouco batido. O que foi péssimo, tendo em vista o fato de que eu conhecia toda a carreira do artista desde o início. Semana passada, antes da febre da (suposta) diss de Taylor Swift (coitada) mirando a Charli, eu tinha pautado no “Clube do Disco” a audição do Brat. Para que estudássemos um pouco como se deu a criação de todo o escarcéu em torno do disco mas, principalmente, para que o ouvíssemos com atenção, passado um pouco mais de um ano. Acabei ouvindo o álbum 5 vezes em um só dia, e chegando à inevitável conclusão de que eu estava completamente errado; trata-se de um dos melhores (senão o melhor) álbuns de pop da década. Ao menos no ocidente.

Claro que minhas escolhas de “Melhores do Ano” precisariam todas de uma revisão, e que existem outros erros grosseiros – outro de 2024 foi não ter coroado o Diamond Jubilee, de Cindy Lee, também por repulsa ao hype. Mas paro por aqui nas revisões, senão este texto vai virar um catálogo. Por ora posso apenas me desculpar com meus leitores, e dizer que vivo em constante aprendizado, revisando minhas decisões e tentando diferenciar, sob a luz do tempo, o que de fato será perene em música, e aquilo que é só hype. Vou continuar errando, e continuar revisando. Sou humilde.

Moral do texto:

  • É preciso saber errar.
  • A web é um cadáver que nos sorri.
  • Acredite no hype. Não acredite no hype – só não se precipite como um twitteiro emocionado.
  • Lembre sempre daquilo que importa realmente: a música.