
Sentir é pra todos, mas colocar os suplícios pra jogo sem suavização requer mais do que coragem artística. Assim é Muse, em todos os seus estilhaços afiados que promovem coagulação em tempo real. O corte é inevitável e lidar com o peso de palavras após o fim da audição é uma experiência de desconforto agridoce.
Não foi o country-gótico encontrado em alguma montanha nevada do Colorado que fez a afilhada de Cher e filha dos fundadores da Chrome Hearts aprender a escrever o melhor disco de sua própria vida, com verdades que não precisam ser sedutoras para se fazer compreender. A beleza distorcida está nesse livro aberto que se recusa a pagar um editor, cada gota de sangue despadronizada cria uma nova estampa no coração de quem ouve – quem sabe isso não vira uma coleção cara aqui?
Segurando uma motoserra na capa do disco, a srta. Stark diz a que veio. Atravessa 13 faixas partindo tudo o que pôde e deixando os pedaços de propósito para que as pessoas tentem juntar e sofram tudo de novo. É bonito mesmo, como em ‘beautiful goodbye’, é caótico como em ‘chaos’, é motivo de inspiração como em ‘muse’. Tem espaço pra esperança ofegante, no refrão de abraço generoso em ‘loves not dead’.
Agora, quem é que consegue sair ileso de algo como ‘age of being honest’, uma hemorragia incontrolável, dessas que tantas mulheres aprenderam a reconhecer mesmo quando o mundo insiste em não enxergar o sangue? É o ato em que o folk melancólico desce do lado esquedo do palco e permite que o rock de indignação absorva a ribalta, transformando públicos acostumados a aplaudir por protocolo em justiceiros de uma causa mais comum do que deveria ser. Essa música escala com tanto poder, que as fraturas emocionais provocadas pelo arremesso das letras viram uma prova da nossa falha de compreensão.
Nem a solar ‘sundays call’ consegue suavizar o espancamento da canção interior. Ou vocês realmente acham que isso aqui é possível de se diluir?
Do you think I’m real or
just a fantasy
Do you even know
what you like about me
It’s hard to be a woman
expiring with time
You Want me to be sexy
when i feel dead inside
i think that you’re psycho
sittin in my room
grabbin on yer dick
Like it’s something I would use
My silhouettes yer hobby
but i just wanna drive
Fast in my Camino
Back to 65’
It’s the age of being honest
and Im getting tired of taking care of you
When will somebody take care of me too
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