
Turnê é uma loucura. Assunto de textos, livros e, claro, muitas músicas. De Beatles a Lil Uzi Vert, as turnês servem de inspiração para novas canções – as últimas da godofredo renderam pérolas que ainda estão por ser lançadas.
Algo meio mágico acontece quando se junta uma banda em um veículo rumo a um local desconhecido – ou semi conhecido, ou re-conhecido depois de um longo afastamento; foi visitando Brasília para um show que reencontrei o Blogo G da 209 Sul, local onde morei há quase 30 anos.

Mais do que memórias que podem ser acionadas, o que impressiona são as novas memórias que vão sendo construídas ao longo dos trajetos. As confusões, as refeições terríveis (e as maravilhosas também), as hospedagens involuntariamente incríveis (e as não tão confortáveis assim), as passagens de som caóticas (e as equilibradas), os palcos péssimos e os excelentes … em cada cidade, uma nova realidade. Um público diverso. Por trás da ansiedade de se apresentar para um grupo de pessoas totalmente desconhecido, de hábitos e culturas muito diversas da sua, existe uma empolgação e um senso de novidade.
Às vezes, mais legal do que criar canções, é apresentá-las a um grupo totalmente heterogêneo de pessoas, noite após noite. Dar a cara a tapa com suas criações. Não sei se existe sentimento igual. E não sei se existe recompensa maior do que … dar autógrafos. Sim, apesar de termos uma banda totalmente minúscula, com pouquíssimos “ouvintes mensais” nas horrorosas plataformas, a gente consegue tocar algumas pessoas. E algumas delas, em cidades como Goiânia e Uberlândia, compraram CDs e exigiram nossas assinaturas. São fãs de rock independente. Os melhores fãs de música, eu diria. Pessoas que estão dispostas a descobrir coisas novas, e que se apaixonam e se relacionam com as bandas que estão ali. Isso é muito mágico.
Mas nem de coisas boas se faz uma turnê. A convivência acirra os ânimos, acentua as tretas. A fadiga divide. Mas depois une novamente. É um pêndulo desgraçado, com uma descarga constante de emoções afloradas. Privação de sono, horas de estrada, calor e frio absurdos, exigência de máxima concentração; é tudo, enfim, projetado para te fazer explodir. E a explosão vem. No caso das melhores bandas, a divergência só existe para torná-la mais forte. Eu tenho uma dessas, e sou muito grato por isso.
Eu acho que vivemos hoje no Brasil mais uma mini explosão do underground, com uma dúzia de bandas fazendo dessas loucuras que a godofredo acabou de fazer. Estivemos em Brasília, Goiânia, Araguari, Uberlândia e Uberaba. 5 shows em 5 noites, acompanhados por bandas locais espetaculares. Quase todas as casas estiveram lotadas. Tem muito público e muita vida Brasil afora para nos contentarmos com o curto circuito do sudeste (aqui cabe o duplo sentido do termo grifado).
O Brasil é grande demais, e a ambição de todas as bandas que têm seguido esses trajetos pode parecer pequena, mas é maior do que o que o nosso jornalismo musical consegue registrar – este está, afinal, mais preocupado com os festivais e as bandas médias e grandes, que eu já nem sei exatamente o quê têm para nos oferecer, além de manchetes e algumas imagens virais de impacto. A realidade, pra variar, está no underground. Que pulsa, vibra, vive e sobrevive. Intensamente.
All my friends are dead. Push me to the edge.
Seguimos na rua. Com as nossas próprias canções e as das bandas que amamos para nos acompanhar. E, claro, uns merchzinho pra vender.

Todos seus amigos são supermodelos.
Os nossos são todos descabelados, de tênis furados e puro amor pelo underground. Tenho dito. Até a próxima tour, Brasil!!



