Saiu o disco do ano. De novo

CALIFORNIALAND é um daqueles lançamentos que podem encerrar 2026. Nada melhor do que isso vai aparecer.

É música, mas a maneira como os lábios se movem pra entregar melodias ensolaradas é cinema. Arte afinada por uma boca que canta Hollywood em forma de jazz, desenha sílabas num rhythm & blues, sussurra confissões em soul e ainda amarra latinidades ao redor dos cabelos enquanto cordas de nylon temperam o segundo disco da cantora que não tem 1% dos holofotes da cena retratada ao longo de doze canções.

Californialand traz a percepção de Niina Soleil sobre o lugar que cresceu, numa viagem em que cintos de segurança são fones de ouvido e o único acidente possível é se ver preso de propósito nas experiências que seu timbre despeja em cada confissão. Se ‘Right On, Hollywood’ fizer suas roupas desejarem abandonar o corpo voluntariamente, você está ouvindo da forma correta. Se ‘Ramblin’ lembrar seus pés de como dançar sem motivo pode salvar o marasmo de uma semana ruim. você está ouvindo da forma correta. Cada faixa obriga uma ação-sensação, uma resposta automática do corpo a outro que faz mais do que apenas enfileirar palavras no lugar certo.

Niina vai te encarar durante o solo de ‘Life&Times of a Wannabe Rockstar’ e todas as suas certezas vão evaporar. É como revisitar o cotidiano a partir de um olhar que não desvia um minuto sequer da sua direção. Ou você baixa os olhos e sorri com timidez ou olha de volta e se vê parcelando passagens pra Los Angeles sem nem ter onde morar.

“In the Darkness of the Desert” e “Tequila Tears” quase desfazem o Tratado de Guadalupe Hidalgo com absoluta justiça. Afinal, a forma como a cantora desfila pela influência mexicana é mais do que apenas uma mera inspiração. Ninguém consegue manipular tantas emoções físicas sem a parte que os estadunidentes roubaram do México. É por isso que não é qualquer um que consegue chorar lágrimas de tequila.

Este álbum é daqueles que viram assinatura de um ano. 2026 deveria vir com a etiqueta desse disco, a foto de Niina anexada e uma pequena descrição dizendo que a música ainda é relevante e, mais do que isso, consegue produzir novos clássicos. Californialand tem classe, tem transpiração, tem personalidade, tem volúpia e tem o raro poder de recriar uma época dentro de outra, sem parecer que é apenas uma releitura de um tempo que passou. É o novo que será lembrado. A nostalgia futura de algo valioso demais para se perceber hoje.

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