Um é pouco, dois é o suficiente

Uma dupla, 12 composições e a certeza de que dá pra fazer obras de arte com apenas quatro mãos

Em 2025, com o lançamento de “Five More Seconds”, já dava para ter uma ideia de que este duo de Yorkshire sabia o que estava fazendo. A música em questão, em parceria com KT Tunstall, foi um dos melhores singles do ano passado e era impossível não imaginar que as canções que viriam no disco completo teriam o mesmo poder de encantamento.

Bom, Fear Of Emotion, do Seafret, consegue pegar as expectativas e colocá-las em órbita. Não é nenhum exagero afirmar que Jack Sedman e Harry Draper encontraram aquela faísca criativa cobiçada por tantos artistas, capaz de se transformar num incêndio incontrolável. É o folk que não se contenta com os limites da floresta: ele pisa na civilização, invade o dia a dia e se transforma naquela aquarela que teima em colorir o cotidiano das pessoas, independentemente da tonalidade de cinza.

Pense num lugar que você descobre por acaso, adora a decoração e fica voltando o tempo todo só pra ter certeza de que não vai perder a sensação da primeira vez. Desde “River of Tears”, somos levados a chegar ao fim sem interrupções e a voltar para fazer o percurso de novo, às vezes criando as próprias imagens na cabeça, às vezes tentando decorar a paisagem.

O frescor moderno passa a bater em seu rosto com mais força a partir de “Driftwood”, muito por culpa da participação de James Morrison. Se virassem um trio, ninguém levantaria bandeiras de protesto, provavelmente pediriam turnês mais longas para mergulhar nas letras ao vivo, como se estivessem sendo escritas junto.

As faixas finais não soam como arremendos pra deixar o material com duração vendável. “Wasted On You” deixa claro que é impossível escolher sua favorita antes de chegar nela, uma daquelas experiências que viram declaração e tatuagem. Não dá para guardar como um tesouro raro, o valor está em compartilhar a riqueza e observar a volta da humanidade a cada audição.

Fear Of Emotion é um álbum que cava fundo e arranca a sensibilidade para a superfície entediante, ensina o coração a fazer algo útil com suas batidas e entrega um ouvinte mais socialmente interessante após “Nobody Sees Us”.

São apenas dois integrantes com composições que os multiplicam por um milhão.
Menos é mesmo mais.



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