O sonho apenas começou

O trio Dream Nails prova com seu novo álbum, You Wish, que recomeçar não é um problema.

Resiliência é coisa interessante, né? No geral, quando acontece de uma banda passar por ruptura e decidir tocar a vida com o que sobrou, o que reflete no som é uma crueza característica.

Com o (agora) trio Dream Nails aconteceu diferente: após enfrentar a saída de vocalistas, o grupo acabou por promover a baixista Mimi Jasson aos vocais principais, e isso fez muita diferença no resultado do novo disco, You Wish. Mas ao invés de chegar com mais peso do que o brutal Doom Loop (2023), o trio continua fazendo punk-rock, mas deixa tudo um pouco mais suave e elaborado.

Ainda tem muito da pegada riot grrrl, é claro, mas as faixas vêm com um certo molejo, coisa de quem sabe bem o que quer e o que faz. É punk e é pop, mas não é exatamente poppy-punk tal qual o conhecemos. Parece coisa de gente veterana. Se eu tivesse que dar uma referência, talvez recorresse às Mercenárias na fase atual (hoje em dia também um trio e também com o som um pouco mais elaborado).

Músicas como Organoid e House of Bones, quase faladas, dividem espaço com canções mais melódicas, como Pack My Wax e outras muito mais suingadas como Move Like An Animal (minha preferida). Em alguns momentos, soa pós-punk, lembrando caminhos percorridos por Siouxsie and The Banshees e Bangles.

E é nessa pegada mais suave, quase folk (mas com guitarras) que o disco termina, com A Sign, que sentencia no refrão “for us there is no ending”. É só o começo mesmo.

Se Doom Loop era um grito desesperado diante do caos, dá pra descrever You Wish como uma espécie de olhar resignado para o que sobrou após a explosão. Deve haver mérito no ato de sobreviver.

Ouça You Wish: