
Na lama digital de 2026, muitos estão correndo desgovernados para tentar encontrar algum tipo de sentido em meio ao caos. Mas algumas dessas direções são perigosas. Como a assim chamada “obsessão por 2016”, esmiuçada neste texto legal da floatvibes. Um dos argumentos centrais para essa nostalgia parece ser a constatação (equivocada) de que a web era menos tóxica na época. Teria sido 2016, com Brexit e a eleição do Trump, por exemplo, o início de uma derrocada que nos trouxe até esse cenário “bostificado”. Isso está equivocado, por alguns motivos.
A seguir vocês lerão dois comentários, e a estrutura dos textos, por si mesma, já é um reforço da validade dos meus pontos. Dos dois comentários, um foi escrito por mim, e outro por uma IA. Vocês conseguem saber qual é qual?
Comentário 1
A nostalgia por 2016, que viralizou como a trend “2026 é o novo 2016”, é muito mais do que um simples capricho da internet. Ela é um sintoma profundo do mal-estar contemporâneo, funcionando como um refúgio emocional diante de um presente percebido como caótico e de um futuro incerto. No entanto, esse desejo coletivo por um “último ano feliz” esconde uma contradição fundamental: a memória afetiva e seletiva apaga os traumas globais que verdadeiramente marcaram aquele período. Enquanto os feeds celebram filtros do Snapchat e músicas do Justin Bieber, esquecem-se de que 2016 foi o ano do Brexit, da eleição de Donald Trump, de uma série de ataques terroristas na Europa e de catástrofes naturais devastadoras. A nostalgia, portanto, não é uma volta ao tempo real, mas a construção de um santuário imaginado, um “checkpoint” emocional onde a angústia do presente se dissipa na lembrança editada de uma simplicidade que nunca existiu de fato.
Esse anseio, porém, vai além da política e aponta para uma transformação radical em nossa experiência digital. A saudade é, em grande medida, da própria arquitetura da internet de uma década atrás. É a nostalgia de uma praça pública digital onde o feed era cronológico e comum a todos, criando experiências coletivas, antes que algoritmos nos trancassem em bolhas individuais de conteúdo. É a lembrança de uma autenticidade performática menos elaborada, das fotos granuladas e das poses espontâneas que antecederam a pressão atual por uma curadoria de vida impecável e contínua. O lançamento dos Stories do Instagram, em agosto de 2016, simboliza esse ponto de virada: a ferramenta que prometia espontaneidade (“some em 24h!”) inaugurou, na prática, a obrigação da performance em tempo real e acelerou a transformação da vida em conteúdo ininterrupto. Saudamos 2016 por representar o último suspiro de uma rede que ainda sentíamos como nossa, antes de nos tornarmos produto refinado do engajamento.
Por fim, não se pode analisar esse movimento sem reconhecer sua rápida e total assimilação pela máquina do capitalismo de plataforma. A nostalgia deixou há muito o território do sentimento espontâneo para se tornar uma ferramenta poderosa de marketing e um combustível previsível para a indústria cultural. As gargantilhas, as jaquetas bomber e a estética “Y2K” voltam às vitrines e às passarelas não por um acidente da moda, mas porque o ciclo de revival de 20 anos é um relógio econômico bem azeitado. Plataformas como o TikTok Shop convertem memórias afetivas em transações em tempo recorde, enquanto as marcas reposicionam produtos atuais como a evolução natural dos desejos de 2016. Dessa forma, o gesto nostálgico, que nasce de um desejo legítimo de autenticidade e conexão, é imediatamente capturado, formatado e revendido como mercadoria. O grande paradoxo é que, ao tentarmos escapar da lógica do presente através da memória, acabamos por alimentar o mesmo sistema que produz o cansaço do qual queremos fugir.
Comentário 2
Nostalgia é o pior dos sentimentos. Especialmente quando se anseia por um passado idealizado. Um passado que não necessariamente existiu da forma como queremos lembrar. 2016 foi um ano terrível. A web não começou a morrer ali (isso foi muito antes), e talvez tudo o que vemos hoje, com os algoritmos e a IA operando uma espécie de modulação cognitiva, já estivesse em prática na época. Ali, as sociedades já estavam duramente polarizadas artificialmente – lembrem-se não apenas de Brexit e da eleição de Trump, mas do golpe parlamentar sofrido por Dilma Rousseff, com os discursos de “pátria e família” de deputados conservadores enrolados em bandeiras do Brasil.
Essa “morte da web”, pra quem é mais perspicaz, já avançava a passos largos em 2010. É incorreto dizer que o feed cronológico do Instagram “morreu” apenas em 2016. Os algoritmos já estavam sendo testados, e nada ali era orgânico já a algum tempo. Quanto ao restante dos argumentos “culturais” (como o do reboot substituindo totalmente a necessidade de invenção), eles também são insuficientes. Já vivíamos o império da repetição e da nostalgia (por sua vez, de outros tempos). Stranger Things, para se tomar apenas um exemplo, já era um lixo nostálgico da indústria em 2016. O atestado perfeito de que era melhor repetir modelos do que propor novas linguagens. É evidente que isso piorou – agora tudo parece realmente ser jogado em IAs, do roteiro ao grading. Mas é meio bizarro buscarmos em 2016 o início de toda essa derrocada, que já é, no mínimo, de duas décadas.
Resta dizer que tudo o que tem sido teorizado a respeito da “morte da internet millenial“, desconsidera boa parte dos conflitos geracionais que hoje são alimentados pela própria segmentação da sociedade em grupos de consumo cada vez mais minúsculos e obsessivos. É uma morte lenta da linguagem e das dinâmicas sociais, sendo construída por máquinas de um projeto desumanizante e autoritário do capital. O que vivemos hoje é um capítulo avançado destas pequenas mortes, rumo a um suicídio coletivo. Mas, para frear isso tudo, precisamos primeiro destruir a ideia de que, em 2016 (ou 2015, 2014, etc), as coisas estavam melhores. Precisamos dizer que, em inúmeros aspectos, as coisas só estão melhores agora. O desgaste geral com a web, a busca por alternativas, o reavivamento de espaços culturais de “carne e osso”, entre outros índices, apontam para o fato de que muitos de nós já saíram da inércia. E isso já é melhor do que o que vivemos em 2016, onde a inércia era o destino inevitável, que nos fez mergulhar no lixo sem olhar pra trás.
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Achei que ia ser mais difícil. Mas um desses textos traz ideias e hipóteses novas, para avançar no debate, enquanto o outro faz apenas um resumo elaborado do texto inspirador (embora eu tenha solicitado à IA que escrevesse um texto “crítico”), com muitos maneirismos de escrita. Imagino que vocês vão acertar. Qual comentário é o meu? O 1, ou o 2?



