
Recentemente fiz uma digressão sobre o estado da crítica da música nacional. Sem entrar em pormenores ou ficar apontando este ou aquele, levantei tendências gerais que produzem um círculo vicioso onde a diversidade dá lugar à mesmice, com a repetição de algumas poucas categorias em listas de fim de ano (ou mesmo em retrospectivas históricas). Pois há algum respiro. Em um contexto onde mesmo a ideia de crítica sofre muito, a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) produziu uma lista impressionante dos melhores 100 álbuns de 2025.
Primeiramente, é necessário dar nome aos bois. A APCA existe desde 1956, inicialmente voltada à premiações do teatro. Com o tempo se consolidou como uma voz importante e, desde 2017, reúne um júri especializado para tentar representar o melhor da produção musical brasileira em listas de fim de ano. Este ano, dado o alto volume de álbuns produzidos (e sua qualidade, segundo relatos dos próprios jurados) a lista foi de 100 álbuns. No meio do ano divulgaram a lista dos melhores 50 álbuns do primeiro semestre e, ao final do ano, a lista dos melhores 50 do segundo semestre. Agora em janeiro fecharam uma lista com os 100 – isso dentre um universo de mais de mil lançamentos, segundo um dos jurados.
Neste quesito (jurados), é importante destacar que estes representam alguns dos principais veículos musicais do país, e que estão ali figuras mais do que tarimbadas, que mantém o pensamento musical brasileiro (incluindo o alternativo) bastante vivo. Integram o júri: Adriana de Barros (Sonora e Mistura Cultural), Alexandre Matias (Trabalho Sujo), Bruno Capelas (Programa de Indie), Camilo Rocha (Bate Estaca), Cleber Facchi (Música Instantânea e Podcast VFSM), José Norberto Flesch (Canal do Flesch), Marcelo Costa (Scream & Yell), Pedro Antunes (Tem Um Gato na Minha Vitrola), Pérola Mathias (Poro Aberto e Resenhas Miúdas) e Guilherme Werneck (Ladrilho Hidráulico). A amplitude e relevância da lista se espelha no ecletismo do júri. Talvez a saída para listas mais representativas seja, como ando dizendo (inclusive aqui, semana passada), a qualificação e diversidade da comunidade dos votantes.
O resultado é uma lista que não apenas reflete o mainstream, ou o “mainstream da crítica” (que talvez seja mais um “mainstream do ecossistema” de sites musicais), mas que o conjuga com as mais variadas manifestações musicais. Vai do pop e dos regionalismos (Gaby Amarantos, João Gomes, JotaPê e Mestrinho, por exemplo) ao underground, passando pelo “midstream” de maior destaque nas listas dos sites (Cícero, Júlia Mestre, Luedji Luna, Rubel, Terno Rei, Zé Ibarra, etc). De fato esta última categoria parece sempre dominante, pelos aspectos estéticos já descritos por mim no texto que referencio lá no início.
O que surge como um respiro nessa lista é ela não ignorar o rock alternativo – ou ainda, as experiências mais, de fato, underground. E não falo isso, de modo algum, por causa da presença da godofredo (minha banda), que ficou de fora de tantas outras listas. Parece que o júri da APCA buscou, realmente, um retrato mais abrangente, o que incluiu muitas coisas que parecem, como a godofredo, meio deslocadas nos balanços “tradicionais”. Temos aqui bandas e artistas como Bike, Celacanto, eliminadorzinho, Fernando Motta, Harmada, Janine, Lupe de Lupe, Nigéria Futebol Clube, Partido da Classe Perigosa, Pelos (entre outras), que mesmo quando entram nas outras listas, nunca parece ser com o destaque devido – em função da falta de espaços mais dedicados ao (verdadeiro) independente e, claro, ao rock em suas diversas manifestações. A lista inclui até um EP, da artista mineira Clara Bicho, um dos destaques óbvios do ano (ignorada em quase todas as listas).
Este júri realmente saiu do lugar comum, com uma lista corajosa. Dela sairão algumas premiações específicas, sendo a maior delas, o Melhor Disco de 2025. Evidentemente, a disputa está entre alguns dos “grandes” (Don L, Jadsa, talvez Mateus Aleluia – o mais merecido?), mas a APCA já deu o recado que tinha que dar. Ao menos isso é o máximo que podemos esperar da nossa crítica, por ora. Existem alguns fatores, como a já esclarecida escassez de iniciativas mais underground*, e o volume de material lançado, que podem explicar diversos problemas. Se eu já ando refletindo sobre a crítica e a especificidade das coberturas do nosso jornalismo musical, será inevitável em algum momento falar sobre a questão do excesso. Com mais de mil álbuns para ouvir, como seria possível representar tudo da forma mais “justa”? Em algum tempo vamos saber se a avalanche de lançamentos, facilitada pelos streamings e demais ferramentas, representa de fato um salto qualitativo, ou se serve apenas para jogar mais areia na praia.
*Uma ausência imperdoável, não apenas nesta lista da APCA, mas em praticamente todas, é o álbum novo da clássica (e seminal) banda do indie carioca, The Cigarrettes. Clareana T, o retorno triunfal de um grupo sempre relevante, merecia demais uma atenção mais destacada. O que grita pela reflexão sempre urgente: qual é o espaço do rock underground no Brasil hoje? E não seria um problema desde sempre? São perguntas em aberto.



