Os lugares do caralho de Flávio Basso, o Jupiter Maçã

Em uma verdadeira "obra-catálogo", Jupiter Maçã lança todas as frutas da fruteira em um liquidificador mágico, que somente ele sabia operar.

É difícil falar sobre Jupiter Maçã. Mas é necessário.

Vou começar do começo. Flávio Basso, o nome por trás da lenda, teve um início de carreira meteórico, formando duas bandas essenciais de fins dos 80 para o Brasil e, especificamente, para a cena do rock gaúcho: TNT e Os Cascavelletes. Essa última chegou a emplacar música em trilha de novela (Top Model), e também protagonizou um episódio único na história da TV brasileira, recentemente transformado em meme – a apresentação da canção Eu Quis Comer Você no programa infantil da Angélica. Imperdível.

Mas o sucesso não veio sem percalços. O rótulo de “porno rock” logo colou, em função da energia transuda das letras e performances. Basso chegou a voltar a tocar com os TNT, mas em meados de 90 já iniciava sua carreira solo sob a alcunha de Jupiter Maçã – às vezes Apple, como em seu primeiro lançamento propriamente internacional, Uma Tarde Na Fruteira, objeto deste texto.

Seu primeiro álbum, A Sétima Efervescência, de 1997, já era uma baita declaração de intenções. O disco bebe, indiscutivelmente, do rock psicodélico britânico dos anos 60. Em especial, do legado de Syd Barrett. Mas isso é filtrado por uma ótica bem brasileira, o que já se anuncia no clássico Um Lugar do Caralho, uma das canções mais famosas de Basso, com um acento profundamente jovem guardista. Em discos seguintes, como Plastic Soda e Hisscivilization, o artista amplia seu espectro. Continua referenciando Os Mutantes, Jovem Guarda e Tom Zé, mas une a isso uma sofisticação eletrônica bossa-novística – Hisscivilization chega a render comparações, não sem um grande fundo de razão, com Stereolab.

Em Uma Tarde Na Fruteira, Jupiter (agora Apple) parece querer fazer um catálogo de todo esse espectro estético. O disco foi lançado originalmente pelo selo espanhol Elefant, e traz em seu “miolo” um compilado de canções de dois álbuns anteriores (Plastic Soda e Hisscivilization) cantadas em inglês. O selo nacional Monstro ainda lançou o álbum em uma versão brasileira, só com as canções cantadas em português. Mas a versão mais facilmente encontrada nos streamings é original que, para mim, é mais abrangente e representativa. O que é oportuno porque, afinal, Uma Tarde Na Fruteira é, tecnicamente, o último disco do artista, já que os seguintes foram lançados postumamente.

É difícil falar especificamente do conjunto de 17 canções que integra este álbum que representa, realmente, uma viagem incontornável à mente de um artista absolutamente brilhante. Ele já se auto referencia logo no início, em Tema de Jupiter Maçã, canção que faz alusão a alguns de seus hits anteriores, como Miss Lexotan 6 Mg Garota, Pictures And Paitings e Um Lugar do Caralho. Algumas das canções cantadas em inglês aqui, como Collectors Inside Collections, Tropical Permanent Holidays e Plastic Soda, são inestimáveis, e mostram como Jupiter às vezes fazia tudo ao contrário. Cantava bossas em inglês, e rocks mais tipicamente sessentistas, como Síndrome de Pânico, em português. Quando se arriscava na língua materna do rock, Jupiter fazia questão de torcê-la. Se não cantava propriamente de forma macarrônica, o fazia com um sotaque bem gaúcho, para deixar claro de onde vinha – notem sua pronúncia de “Futuristica”, em The Futuristica Waltz. Impagável.

O disco ainda tem espaço para algumas das canções mais ambiciosas e poderosas do rock nacional da primeira década dos 00 – como Menina Super Brasil, Act Not Surprised e Base Primitiva Revisitada – as três responsáveis por “amarrar” de forma impressionante as referências sessentistas do artista à sensibilidade moderna. Coisa que Stereolab fez antes, e Basso parecia saber. Mas é claro que ele fez essa fusão à sua maneira. Base Primitiva Revisitada, para mim a melhor canção nacional não apenas daquela década, mas do século XXI inteiro, traz linhas de baixo claramente “krautrockianas”, com modulações eletrônicas e o vocal filtrado como em Dia 36 d’Os Mutantes. Para completar a mistura, ela se sustenta em uma base rítmica que traz triângulos e tamborins, garantindo todo um groove específico para a “fórmula” stereolabiana. A canção, assim como o disco, lança todas as frutas da fruteira em um liquidificador mágico, que apenas Flávio Basso sabia operar.

Ele era assim. Antropofágico, conseguiu digerir o estrangeiro de uma forma absolutamente natural, a ponto de tornar as influências parte tão integral de sua própria estética, que chega a ser meio idiota ficar dissecando as coisas tanto assim. E é por isso que vou parar, e deixar vocês com a obra prima magnífica que é Uma Tarde Na Fruteira – o melhor álbum de Jupiter Maçã ou, ao menos, o que melhor sintetiza suas ambições musicais.

Infelizmente Basso nos deixou cedo demais, em 2015, com apenas 47 anos. Estivesse vivo, certamente teria avançado em sua ousadia artística. Apesar de ter iniciado sua carreira em um projeto de sucesso, e de ter conseguido lançar seus discos solo por selos relevantes, o artista permanece relativamente no underground. Tem o respeito de uma base de fãs meio “de culto” mas, ainda assim, clama por ser mais celebrado. Até porque não chega nem a ser celebrado por quem hoje, infelizmente, carrega de forma totalmente incompetente o bastião do underground no Brasil.

Pro Jupiter Maçã nós temos que pagar pedágio. Sempre.