
“Você é tão simples / E eu chorei”
Novamente Fellini se apresenta com despedidas. Em seu segundo disco, já anunciam: Fellini só vive duas vezes – depois dessa, acabou. Que nada. Diz a sabedoria popular que gatos têm 7 vidas. Fosse um gato, a banda já teria mais de duas vidas, com certeza. Mas certamente era mais interessante pensar que, ousando da maneira como estavam, eles não durariam muito. Para nossa sorte, duraram. E ousaram mais do que que se poderia imaginar.
Este segundo disco é revolucionário. Não acho que seja exagero dizer isso. Para o álbum, a banda se resume a Thomas Pappon e Cadão Volpato, que compõem o trabalho como uma peça lo-fi sem precedentes até ali na cultura musical brasileira. É um disco caseiro, feito com baterias eletrônicas rudimentares, tecladinhos, guitarras e baixos imersos em efeitos. Tudo em 4 canais- não foi esta, até pelo menos o início dos anos 2000, a base de todo o rock alternativo, forjado em fitas e experiências de garagem, quarto de dormir ou sala de estar? Fellini abriu essa porta por aqui em 1986. Era muito cedo. Alguém entendeu isso na época?
Eu sequer consigo afirmar, sem conversar com os caras, se eles já se ligavam em Daniel Johnson, R. Stevie Moore e outros gringos que estavam produzindo assim. É bem provável que não. Abriram uma avenida (ou um oceano).
Musicalmente o disco se distancia profundamente de seu álbum de estreia. Depois de uma sólida introdução (Alcatraz Song), o duo gasta uma onda maravilhosa em Mãe dos Gatos. É a canção improviso do disco, gravada ao vivo e captando a ambiência. Os caras contam que um gato passou na frente dos equipamentos, e que dá pra ouvir o guarda passando na rua. A música se desenvolve, enfim, a partir de drones de teclado e vocalizações malucas, preparando a melodia da canção que vem a seguir: Todos os Dias da Semana. Essa mais tradicional em estrutura, com estrofe e refrão, mostrando que a Fellini do primeiro disco não estava totalmente morta: “O amor é uma droga / Nem dá barato“. Os versos viscerais de Volpato dão as caras.
Domingo de Páscoa e Tabu inauguram uma tendência para a banda. Batidas eletrônicas de bossa nova bem rudimentares, que carregam um pseudo samba embalado por trompete vocal (sim, sons de trompete feitos com a boca). A banda ficará marcada, mais à frente, por um certo flerte com o samba. Embora, aqui, isso apareça muito mais como a exploração de templates eletrônicos em busca de um som inusitado e inovador, do que com a mescla de gêneros (que será tão celebrada nos anos 90 no Brasil, novamente com a Fellini aparecendo como precursora*).
O disco ainda traz outras canções mais “fechadas”, irrompendo melodias e letras antológicas por trás das camadas lo-fi, como em Socorro, Tudo Sobre Você e Burros & Oceanos. Esta última com um dos melhores refrões que a banda já escreveu, que culmina nos versos: “Tantos enganos, as vezes que eu dei / com os burros n’água“.
Como banda, deram com os burros em todas as águas. Brincariam depois com isso: tá tudo errado, não tá vendendo nada, mas a rapaziada tá se divertindo**. Não é pra isso que fazemos música?
Neste sentido, nunca deram com os burros n’água. Abriram oceanos inteiros para mergulharmos.
Ouça aqui:
* Essas reflexões se aprofundam, inevitavelmente, com os próximos dois discos da banda. Eu não acho que a banda mete o samba no rock para “abrasileirar” o som, gratuitamente. Refletem influências, sem nunca conseguir escapar das harmonias e progressões básicas do punk e do pós-punk – por fim, dos marcadores do que sempre chamo aqui de rock alternativo.
** Cenas do próximo (álbum) capítulo: 3 Lugares Diferentes – o polêmico melhor álbum do ano de 1987 para a revista Bizz. Logo mais eu explico.