Sunya é só uma parte de tudo o que você vai ter que ouvir

The Dear Hunter nos convida ao futuro inevitável na melhor forma da banda desde o Act V: Hyms with the Devil in Confessional

Em cinco atos anteriores, o The Dear Hunter explorou com riqueza estética e musicalidade sensorial, a jornada de um personagem complexo, carregado de transformações contestáveis no cenário do fim do século XIX, cativando ouvintes na linguagem do prog imersivo ao extremo.
O estilo permite esse tipo de reflexão e Casey Crescenzo ofereceu nessa quina de discos mais do que apenas uma audição de entretenimento. Os Acts são experiências filosóficas e cinematográficas, incorporando tragédia clássica, narrativa psicológica, alegoria moral e drama social espalhados pelos capítulos de cada álbum.

Ao final de Act V: Hymns with the Devil in Confessional, encaramos o arco derradeiro de um homem que se tornou aquilo que o oprimiu quando criança, sob a estética vitoriana esfumaçada e uma transição de cabaré burlesco/folk/música teatral para o rock progressivo orquestral e alternativo.

Sunya é apenas mais um ato de uma nova jornada, agora futurista e talvez menos ficcional do que parece. Tudo começa em The Indigo Child, o EP de 2021, onde Casey apresenta a humanidade devastada, com recursos escassos, colapso ambiental e cidades isoladas.
Antimai é uma dessas cidades (e também o disco subsequente) conhecida como a última grande cidade desse universo pós-apocalíptico. Dividida em oito anéis concêntricos, quem está mais perto do centro tem mais poder e privilégios — no caso, o imperador XCV.

O Indigo Child é a figura que teoricamente virá para libertar as pessoas que vivem nos anéis mais distantes, abandonados pelo sistema e condenados à mais profunda miséria. Olhamos aqui para o estágio final do capitalismo, enxergando a cidade completamente segmentada com o poder concentrado no topo. A desigualdade estrutural se mantém com a combinação polícia-religião-controle social-propaganda.

Sonoramente falando, a banda avança para um synth groovado com elementos industriais e costura o progressivo sob essa estrutura de futuro. Cada um dos círculos é simbolizado por uma canção.

Então chegamos em Sunya que apresenta um caminho para fora de Antimai. O disco em que estamos. É aqui que o som se molda à novidade dessa caminhada além dos muros em busca de uma resposta desesperada à ordem cataclísmica de civilização. As sete músicas abraçam as influências de jazz, soul, R&B e metais da pegada big band pra criar a atmosfera de distopia groovada enquanto o personagem explora o que fizeram com o mundo — principalmente quando chega na trinca “The Glass Desert I, II e III”.

Na busca por Indigo Child, ele acaba encontrando Sunya e fica sem respostas para a realidade implacável. Em sânscrito, śūnya significa vazio, zero, nulidade. Uma espécie de vácuo. Mas esse vácuo tem um potencial de criação a partir dele e não um destino final intacto.

O personagem busca um sentido e descobre que não existe. Que as crenças o aprisionaram, que poderes não são naturais e que a sociedade não pode ser reinventada. O que se pode fazer é construir a partir do vácuo, ignorando as verdades que contaram ou os mitos que foram propagados para inspirar os fracos e ameaçar os fortes.

O ponto é: a história fica ainda melhor quando se escuta. E o The Dear Hunter é um daqueles sentidos que o vazio atual vale a pena ser preenchido.