Na versatilidade da sua estreia, Victoria Canal chegou emocionando com seu talento

Slowly, It Dawns é o disco de estreia da cantora e compositora hispano-americana, baseada em Londres, Victoria Canal. Guiado por vocais emotivos e arranjos delicados, o álbum mistura elementos de folk, soul e pop alternativo, consolidando Victoria como uma das vozes mais promissoras da nova geração.

Eu vivo em conflito entre querer saber o máximo possível sobre os artistas e apenas ouvir a música sem saber de nada. É como ir ao cinema depois de assistir ao trailer e ler resenhas (sem spoilers), ou entrar na sala sem nem saber o enredo do filme. Ambas as experiências podem ser boas, dependendo de como a arte vai te emocionar.

Mas confesso que gosto mais de ouvir coisas novíssimas sem ideia de quem é o artista. Esse ar de mistério me lembra uma fala do Trent Reznor, do Nine Inch Nails, sobre como a internet “estragou tudo”. Ele dizia que, antigamente, achava que os caras do Deep Purple eram magos e que esse mistério fazia parte da experiência. Hoje, alguns artistas ficam aí na internet passando vergonha e criando ranços desnecessários.

Hoje sabemos de tudo. Vlogs, fofocas e conteúdos gerados pelos próprios artistas nos colocam praticamente dentro da vida deles. É um acolhimento mais pessoal. É uma conexão além da música. É assim que as coisas funcionam agora. Se você ler por 10 minutos dicas sobre como se divulgar como artista, 99% delas dirão para fazer isso. Como se criar música já não fosse um trabalho grande o suficiente, os artistas agora precisam criar conteúdo também. Que tempos vivemos.

Com a Victoria Canal, eu não sabia de nada. Absolutamente nada. Não sabia que ela tem uma deficiência congênita no braço direito e que utiliza sua plataforma para promover a inclusão e desafiar estereótipos sobre pessoas com deficiência. Não sabia que algumas de suas músicas foram incluídas em trilhas sonoras de séries e filmes. Não sabia que Chris Martin (do Coldplay) ficou impressionado com o talento e a sensibilidade artística dela. Fui atrás de tudo isso porque fiquei encantado com o disco de estreia.

Crédito: Karina Barberis

Slowly, It Dawns soa como a jornada de uma noite especial. O disco tem início, meio e fim. Começa com um clima mais leve e positivo, entra na reflexão de fim de festa e termina na manhã seguinte, repensando o futuro.

O começo positivo está em June Baby, uma música primorosa sobre uma paixão de verão. Todo aquele sentimento de “estamos só curtindo” que vira “acho que estou com medo… acho que eu te amo.” Esse sentimento é carregado por uma melodia de refrão que vai grudar na sua mente. A ponte do meio para o final da música é uma aula de composição. Sou apaixonado por pontes musicais que são a melhor parte da faixa – aquelas que você gostaria que fossem o refrão só para repetir mais vezes, mas que te obrigam a ouvir tudo de novo para chegar naquele momento mágico.

O disco segue em clima festivo e animado em Talk e na belíssima mistura de pop com música cubana em California Sober. Com Cake e 15%, já sentimos a transição para o clima de reflexão do fim de semana, e o disco segue em outra jornada. A versatilidade do início do álbum é incrível, mas tudo se conecta muito bem. Não parece falta de foco. Totally Fucking Fine e Vauxhall são duas músicas do meio que me pegaram pela alma – são absolutamente deliciosas.

Na parte final, Barely tem o clima de uma manhã ensolarada de verão, ainda não tão quente. Já Black Swan é, talvez, a música mais criativa melodicamente falando. As progressões são belíssimas, acompanhadas de um piano hipnótico que flui, sobe, desce, e se enche de dinâmica. É uma música épica, daquelas para fechar o disco – mas Victoria ainda guarda algo ainda mais especial.

“Swan Song”. Quando essa música começou, eu já não sabia o que esperar. Com a frase inicial no piano ainda mais melancólica, fiquei feliz (amo melancolia). Quando Victoria canta a primeira frase, “If I were you, I would open my curtains” (Se eu fosse você, abriria as cortinas), meus olhos se encheram de lágrimas. Que melodia incrível e tocante. Foi estado puro de emoção. Fiquei completamente apaixonado pelo disco e sua jornada. Que performance vocal. Que talento!

Eu amo essa sensação de a música falar pelo artista – sua voz, suas ideias, sua criatividade, suas emoções. Slowly, It Dawns é um disco de emoções. E, agora, sabendo da jornada da Victoria para chegar até aqui, percebo que muitas daquelas dores estão nas entrelinhas de suas letras e na execução de sua voz. Que disco lindo. Esse é obrigatório de ouvir.


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