
Tem coisas na vida que só acontecem quando você para. Areia movediça funciona assim. Se você entrar em pânico e se debater vai afundar mais rápido. Se você ficar parado, não vai a lugar nenhum. Mas quem aprende a se mover devagar, com intenção, encontra o caminho.
Ricochet, terceiro disco de Lindsey Jordan como Snail Mail, é exatamente essa areia movediça. Quem passa rápido não afunda. Quem fica parado, também não. Você precisa se mover com ele.
Lindsey Jordan, apesar de nova, é veterana nessa jornada. Desde os 16 anos, quando lançou o EP Habit, ela já mostrou talento maior do que muitas carreiras. O debut Lush, em 2018, foi daquelas chegadas que impactaram o mundo do Indie. Valentine de 2021, um dos meus discos favoritos daquele ano, foi a prova de que não foi sorte de principiante.
E então veio o silêncio. Quase cinco anos. No meio desse tempo, cirurgia nos pólipos vocais, tratamento para reaprender a falar, uma mudança de cidade e uma nova fase da vida. Quando Ricochet chega, não chega como retorno. Chega como outra pessoa usando o mesmo nome, com mais controle, mais paciência, mais clareza, inclusive na voz.
O disco foi produzido por Aron Kobayashi Ritch e o resultado é o trabalho mais polido que a Snail Mail já fez, sem perder o que faz dela quem ela é. As guitarras dissonantes continuam sendo o elemento principal do seu trabalho. Mas agora também tem cordas, metais e arranjos gigantescos e amadurecidos. A referência estética das músicas é crua, mas moderno e claro. O disco inteiro navega no universo dos anos 90, passando pelo shoegaze, pelo grunge, pelo power pop e pelo emo mais melódico, sem ser cópia de nada.
“Tractor Beam”, que abre o trabalho, mostra o clima que o disco tem. Já vem com um ótimo riff de guitarra, introdução grandiosa e espaço para o primeiro verso encantador dizendo “fragmentos de estrelas caem dela”. A voz de Jordan voltou diferente. Mais limpa, mais larga, com controle cirúrgico onde antes havia rispidez.
A adolescente rouca de Lush foi embora. No lugar, temos uma nova voz que sabe exatamente quando precisa ser mais forte e quando precisa sussurrar. Essa é a nova arma da Snail Mail, dando tiros para todos os lados e os ricochetes acertando nossas emoções.
Seguimos o disco com “My Maker” e um violão extremamente bem timbrado e harmonia belíssima como se fosse um voo para os céus e um arranjo etéreo. As melodias de voz, vão nos levando para caminhos familiares, mas quando tentamos adivinhar pra onde as últimas notas de cada verso vão terminar, Lindsey nos mostra que ela não é nada previsível.
“Cruise”, tem talvez o melhor arranjo grandioso do disco. É uma música épica ainda na faixa 4 do disco. “Agony Freak” é a primeira música do disco que já no segundo refrão eu já estava cantarolando as melodias que levam pra grandes melodias da Kim Deal do Breeders.
Em “Dead End”, o disco chega ao seu ponto de equilíbrio. É um Power Pop com cara de hino dos anos 90 com cheiro de hit que seria Top 3 no Disk MTV na época. “Butterfly” tem cheiro, gosto e formato de French Pop Stereolab. “Nowhere” tem um quê delicioso de Weezer.
“Hell” é uma música lindíssima sobre ter medo de morrer. Talvez a melhor música do disco. A faixa-título encontra uma paz em frases como “se não existir nada depois, então podemos fazer o que quisermos”. Não é um disco melancólico, mas ao mesmo tempo soa como um. É um disco que olha pra tristeza com curiosidade. É uma nota que vai e bate e volta.
Cada ouvida revela uma coisa que sempre esteve lá desde o começo mas que você não percebe na primeira audição. São detalhes de arranjos de cordas em “Light On Our Feet” ou uma pausa e silêncio no lugar certo em “Nowhere”.
O jeito que o disco fecha com “Reverie” encerra tudo com uma calma que parece uma vitória positiva. A parte instrumental na ponte do disco é dessas partes que dá vontade de ficar ouvindo em loop. Um solinho de guitarra com as notas exatas e necessárias. São os passos lentos e fluídos dessa areia movediça que nos leva cada vez mais dentro dessa obra incrivelmente encantadora e viciante.
Quem ouvir apenas uma vez e achar que não tem nada de mais, apenas vai perder a oportunidade de viver essas emoções de um disco tão bonito. Esse disco pede tempo, do mesmo jeito que a Lindsey precisou de tempo pra jogar ele pro mundo.
“Snail mail” significa correio tradicional com carta e nunca foi apenas sobre pressa. É sobre a mensagem que vai chegar e seu processo. E Ricochet é talvez a carta mais linda que Lindsey já escreveu pra gente.
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