
Eu ouvi “Golden Circle” por acaso e acabei ouvindo o disco todo por amor. Era um daqueles dias em que a gente quer apenas assistir a clipes e se concentrar na mensagem dos vídeos. Foi mais do que isso. Um prog pop orquestra parecia ser exatamente o que precisava — e transcendeu a linguagem visual para a surpreendente experiência de Wheels Within Wheels.
Os noruegueses do Meer combinam texturas que atravessam décadas e paralisam nossa percepção. Existem inclinações setentistas em algumas linhas vocais misturadas ao instrumental que desafia o pop ao mesmo tempo que o executa. É assim que “Chains of Changes” nos recepciona mas não nos limita.
No decorrer das faixas, o peso de guitarras ganha mais vida e também traz elementos de um indie bem alternativo, incrivelmente sem parecer uma colcha de retalhos. Está mais pra um colchão muito confortável que a gente deita com o fone de ouvido e perde a noção do tempo, tamanho o conforto artístico que os oito integrantes proporcionam.
As músicas carregam aquela beleza artesanal das grandes trilhas sonoras, com transições que brincam propositalmente com as emoções. A suavidade de Johanne-Margrethe Kippersund Nesdal abraça as dores do mundo que o Jota Quest fez questão de estragar. Em dueto com Knut Kippersund Nesdal, as estrelas se alinham absurdamente, provocando deslumbres inevitáveis para ouvintes distraídos. E estamos falando apenas de “Come To Light”. Ainda faltam 7 canções.
A alquimia parece complexa mas todos conseguem brilhar em doses meticulosas. Daqui em diante, devemos reverenciar os arquitetos impecáveis que promovem essa atmosfera tão única: Eivind Strømstad nas guitarras, teclados e programação, Åsa Ree no violino, Ingvild Nordstoga Sandvik na viola, Ole Gjøstøl no piano, teclados, órgão e programação, Morten Strypet no baixo e Mats Fjeld Lillehaug na bateria. Que aula eles oferecem em “To What End”! É um deleite observar a forma que a construção dessa faixa integra tantos estilos juntos e explode num refrão imprevisível, levadas em contratempo e uma sinfonia apoteótica como malha de fundo.
É um disco emocionante, dramaticamente acessível e com aquele sentimento delicioso de que novos clássicos podem nascer todos os dias — sem a necessidade de morarem num estilo.
Wheels Within Wheels seria o álbum do ano de 2024 se eu tivesse a decência de tê-lo conhecido a tempo. Charlotte Wessels que me desculpe.
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