
Se Belchior na década de 70 já alertava que o descontentamento era presente em suas canções, mas poderia parecer apenas modinha, em 2025 as coisas não mudaram tanto assim, e ainda há quem transforme a revolta em poesia, formada ou transformada a partir de alguns ícones.
Ana Matos Fernandes, 42 anos, conhecida pela alcunha de Capicua, chegou a dizer, há cerca de cinco anos, que Madrepérola poderia ser seu derradeiro disco. Um disco que tinha em si uma aura de otimismo, o que não ocorre muito agora em seu sucessor, Um Gelado Antes do Fim do Mundo, a começar pelo título.
A ideia de não lançar mais álbuns, segundo entrevistas dadas pela artista, não tinha a ver com uma vontade de parar, mas sim com o fato de o formato parecer cada vez mais anacrônico.
Mas é fato também que, não podendo fechar os olhos para a vida ao redor, Um Gelado Antes do Fim do Mundo precisava existir como um álbum, e funciona melhor se ouvido como um todo, que é maior que a soma das partes. É um testemunho do mundo pós-pandêmico e de toda a complexidade da vida acumulada desde então. E como se faz um testemunho desses sem perder a ternura, aquela do disco anterior? Com poesia, claro.
A morte de um grande poeta
É como o incêndio da biblioteca de Alexandria
Ou o desmatamento da Amazónia
Mas não haveria poesia se a vida não fosse transitória
E não fosse preciso inventar o fim da história
A morte de um grande poeta
É a extinção completa de todas as aves
Mas não se faz poesia só de dias suaves e sеm pesares
(Ao Ocaso)
Musicalmente, Capicua explora cada vez mais as estruturas melódicas, junto com as partes faladas que a mantém num campo que faz com que permaneça classificada como rapper, mas este é um limite que ela já ultrapassou. Entremeando as canções, há versos numerados em algarismos romanos, declamados e pontuados como intervalos de reflexão.
Making Teenage Ana Proud, o primeiro single, lançado ainda no início do ano, vaticina a sina (desculpe, é impossível resistir à tentação de ser poeta) do artista que se rende a ser multimídia: “(…) artistas já não fazem história, fazem autopromoção” / “(…) ativistas de internet monetizam a subversão“.
Há, no site português Observador, um título de resenha sobre um álbum do Grizzly Bear, que ainda é o meu preferido: Quanta Desgraça Bonita. Sobre as letras de Um Gelado Antes do Fim do Mundo, é possível classificar algo parecido. É um disco desgraçadamente belo.
É muito pouco comum se ler sobre a música pop portuguesa em sites brasileiros. A banda Linda Martini (da qual o ex-guitarrista Pedro Geraldes fez parte, e coincidentemente hoje colabora com Capicua neste álbum), que lançou este ano o álbum Passa Montanhas, esteve em São Paulo fazendo shows, e pouco se ouviu falar sobre isso, antes e depois.
O disco, que inicia com versos declamados que em determinado momento questionam: “haverá outra causa tão urgente como a sobrevivência?“, encerra com a constatação: “triste é o povo que não consegue imaginar um futuro. Nós somos esse povo”.
Se alguém por acaso achar que esse desespero é moda em 2025, há que se pensar: quem é que não anda mesmo descontente, e desesperadamente grite em português?
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