E tudo mais jogo num verso

Perdemos Jards Macalé, que apesar do rótulo de "maldito" imposto pela grande mídia, sempre foi popular.

Não me recordo bem qual foi exatamente a primeira vez que tive contato com a obra de Jards Macalé. Chuto que tenha sido ou por um disco do Camisa de Vênus – na década de 80, a banda regravou Farinha do Desprezo e Gotham City – e mais recentemente, em 2015, Só Morto – ou por uma participação de Jards no programa Matéria Prima, da TV Cultura, de São Paulo, apresentado por Serginho Groismann.

No programa, Macalé respondia a perguntas do apresentador e da plateia, e se não me engano, também tocava algumas de suas canções ao violão. À época, começo dos anos 90, a febre do momento eram as bandas cover. Quase ao final do programa, um jovem pega o microfone para perguntar ao cantor (que poucos ali pareciam conhecer) e pergunta o que ele acha deste tipo de banda, e todos nós tivemos a oportunidade de ver o mestre elaborar uma divertidíssima resposta em inglês (que não vou me recordar), mas que terminava com “well, well… but… what is cover?!?“.

Porém, é preciso dizer que, a despeito de todas versões palatáveis produzidas de canções originais de Jards, sejam as do Camisa de Vênus (não se engane pelo verniz subversivo do grupo, todas as versões produzidas são quadradas), seja o alçamento de Vapor Barato a megahit com O Rappa (depois de já ter sido sucesso com a Gal), a obra de Jards não precisaria desta formatação para ser popular, se tivesse havido mais boa vontade da indústria.

Assisti a dois shows de Jards Macalé: um em 2019, no Centro Cultural São Paulo, no lançamento de Besta Fera, em que minha lembrança mais nítida é de ao término do show, subir as escadas da Sala Adoniran Barbosa e notar que todos à volta caminhavam em silêncio, numa espécie de deslumbramento pelo que acabavam de presenciar.

O segundo show, em 2023 no Sesc Pompeia, foi no lançamento de Coração Bifurcado, e era um show que havia sido cancelado umas semanas antes, por motivos de saúde, o que obviamente era digno de apreensão. Remarcado, o show aconteceu, com Jards tocando sentado, ainda se recuperando de um resfriado, mas fazendo seu papel com maestria, junto a uma banda formada apenas por mulheres. Apoteótico.

Assim como Lô Borges, outra perda irrecuperável, Jards estava na ativa. Há pouco tempo se apresentou junto com Joyce Moreno, em show aclamado.

É bem verdade que o rótulo de maldito nunca incomodou Jards, que sempre fez o dele e até se valeu dessa fama para fazer o que quis de sua carreira, mas lamento um pouco que seja necessário relembrar tantas vezes seu valor.

2025 nos levou alguns artífices da música tal qual a conhecemos, e talvez tenha levado para longe a música de invenção. Espero honestamente que novos artífices surjam, mas duvido que isso vá acontecer à frente de holofotes de uma ou outra plataforma que tem preferido entupir seu catálogo de música falsa.

(mais representativo da grandeza de Jards Macalé é o texto do Vinícius Cabral desta semana, mas eu quis complementar com minhas divagações).