
É impossível falar sobre 1990 sem pensar no impacto que a chegada da MTV ao Brasil teve para a forma como a música era consumida e apreciada, já que a partir daquele momento – ainda que houvesse uma tímida veiculação de clipes em outras emissoras – as canções passaram a ser visuais. Para se ter uma ideia, o que era um evento – o lançamento de um videoclipe no Fantástico – passou a ser corriqueiro, e até havia as premières na MTV, mas depois disso o clipe passava a fazer parte da programação rotineira.
Todo este preâmbulo para dizer que o Living Colour, especialmente em seu segundo álbum, Time’s Up, foi um grande beneficiado em terras nacionais por conta da chegada da emissora tocada por aqui sob a batuta – para o bem e para o mal – do Grupo Abril.
Calcule o impacto da chegada de um clipe vaticinando a sentença de que Elvis Presley, o intitulado Rei do Rock, a despeito das teorias da conspiração (que saudade da época em que elas causavam mais alegria do que tristeza), estava realmente morto. E mais: quem ajudava a sentenciar este fato era ninguém menos do que seu contemporâneo Little Richard, este sim bem vivo à época. Cabe ressaltar que a música não se tratava de um vilipêndio à memória de Elvis, apenas um convite a aceitar os fatos.
Pois bem: o Living Colour, com a ajuda da MTV e de um disco que ia além do terreno já conquistado com Vivid, seu disco de estreia, entregou bem mais do que se esperava da banda, que – impossível negar – era alvo dos estereótipos: como assim uma banda formada por quatro homens pretos ousa tocar rock pesado? Tanto que a banda foi prontamente encaixada num estilo que na real nunca existiu: funk metal. A concessão que a indústria da música fazia aos homens da etnia que – vamos combinar – criou o rock lá atrás era essa: se vai tocar som pesado, é porque tá misturando com outro estilo, pra não sair da caixinha que ela preparou para eles.
É claro que a banda não deixaria de tocar neste tema, e é aí que temos Type, o primeiro single, que elenca todas essas imposições do sistema para no refrão nos presentear com a descrição precisa:
We are the children of concrete and steel
This is the place where the truth is concealed
This is the time when the lie is revealed
Everything is possible, but nothing is real
Os temas sociais dominam o disco, e temos preciosidades como History Lesson e a apocalíptica (e atual) Information Overload. Além de temas mais introspectivos e reflexivos, como Solace of You (cuja introdução da guitarra de Vernon Reid foi comparada à de Alagados dos Paralamas do Sucesso) ou Love Rears Its Ugly Head, em que Corey Glover demonstra o porquê de ser considerado um dos grandes cantores de sua geração.
Tudo isso e a técnica apurada de Glover, Reid, o baixista Muzz Skillings (que depois deixaria o grupo, dando lugar ao igualmente fenomenal Doug Wimbish) e o baterista William Calhoun (que além de descer o braço na bateria, ainda é o autor da devastadora Pride) fazem de Time’s Up um álbum indispensável, uma crônica bem escrita do mundo à época em que foi criado, mas que serve bem para nossos tempos, já que o mundo continua sendo um lugar cruel. Ainda bem que existe a arte.
Ouça na sua plataforma favorita:



