A Popaganda do Head Automatica é a alma do negócio

Popaganda é um mergulho sem vergonha no Powerpop mais chiclete que você vai ouvir. Nasceu em 2006 e ainda continua com gosto 20 anos depois.

Meu acesso a música teve uma jornada. Primeiro foram os vinis, depois as fitinhas cassette, depois os CDs e depois veio a internet compartilhada. Mas antes dos streamings de música ou antes dos algoritmos “decidindo” o que você tem que ouvir, existiam os blog de música. Foi um momento na internet que a compra de música pelo iTunes já estava consolidado, o Metallica já tinha processado o Napster e achar músicas com qualidade boa nos serviços mais conhecidos estava ficando cada vez mais difícil, mas aí os blogs com arquivos veio pra suprir essa demanda.

O blog de música tinha um ritual muito específico. Um post com apenas a imagem da capa do disco, um link para baixar o .Zip do disco completo e um sonho. Simples. Sem preview. Sem sample de 30 segundos. Você baixava no escuro, escolhia pela capa ou pelo nome, esperava o download terminar e descobria se aquilo prestava ou não. Deixava no HD ou apagava pra sempre. Assim descobri muita coisa. De Lamb of God até As Tall as Lions, ex-banda do Dani Nigro, produtor e compositor de artistas como Chappell Roan, Olivia Rodrigo e Caroline Polachek (um dia falo de As Tall as Lions).

E foi assim também que conheci o disco desse texto, o Popaganda, da banda de New York chamada Head Automatica. Não lembro qual blog era. Lembro que baixei puro e simplesmente pela capa que chamou atenção. Quando o Zip terminou de baixar, na primeira música já curti o som. Com o Google ainda muito tímido, só descobri que a banda fazia um Powerpop e que o vocalista se chamava Daryl Palumbo e também era vocalista da banda de post-hardcore Glassjaw (que ouvi pouquíssimo).

O Head Automatica começou em 2003 como um projeto paralelo do vocalista Daryl Palumbo. Lançou dois discos e alguns EP e acabou em 2013. Agora, depois de 20 anos do lançamento de Popaganda, o Head Automatica meio que ainda existe. Fazem shows esporádicos e até tocam músicas novas nesses shows, mas nada oficialmente lançado.

O primeiro disco, Decadence de 2004, tinha um som dançante e com molecagem, cheio de influências de hip-hop e eletrônico. Entre o primeiro disco e o Popaganda, o Daryl Palumbo passou por um período difícil lidando com a doença de Crohn, que cancelou várias datas de turnê e jogou o Head Automatica no limbo por um tempo. Quando ele finalmente voltou ao estúdio, em outubro de 2005, foi com o produtor Howard Benson que a banda chegou com 40 músicas e uma direção diferente e vontade de dar certo.

Um disco de guitarra, melodia e refrão. Rock rocado e irreverente. Grudento como todo bom Powerpop deve ser. A banda descreve o Popaganda como “uma parte The Knack, uma parte Cheap Trick, cinco partes Elvis Costello”. Eu vejo como um disco de influências britânicas dos anos 70 e 80 feito por um cara que veio do post-hardcore e simplesmente não ligou pra nenhuma limitação. O disco tem todos os hooks possíveis e todas as músicas são memoráveis do seu próprio jeito, as melodias são criativas e cativantes e as letras são divertidas e irônicas.

“Graduation Day” abre o disco com guitarra e piano crescendo num pop de manual e com backing vocal do Gerard Way, do My Chemical Romance. É uma música com espírito meio jovem, meio Legalmente Loira. “Laughing At You” tem uma das interpretações de voz mais divertidas e legais do disco. O refrão é épico e um bridge gigante, ardido e bonito ao mesmo tempo.

“Lying Through Your Teeth” é um glam rock com introdução cheia de energia, um riff excelente e um refrão irresistível. “Nowhere Fast” é um rock dançante criativo com uma das letras mais interessantes do disco. “Scandalous” é uma releitura de 2006 dos neo-doo-wop dos anos 50 e anos 60. “Curious” é uma música com cara de 2006 que soa como uma mistura de Strokes e Weezer. Em “God”, cheio de ironia e sarcasmo, Daryl Palumbo fala com Deus e seus problemas de saúde.

Em “Shot in the Back”, Daryl entrega um vocal excelente e harmonias belíssimas. Em “Million Dollar Decision”, um Emo-Pop com cara de Hit e hino de um período musical. Pena que quase ninguém conheceu essa banda. O disco segue em ótimo nível em “She’s Not It” e “Egyptian Musk”, que traz um pouco das influências do eletrônico e lembra um pouco o primeiro disco Decadence. 

Aí vem minha música favorita do disco, “Cannibal Girl”. Uma letra irreverente, groove dançante, baixo marcante, riffs de guitarra épico, arranjos impecáveis e produção de primeira. Música com dinâmica, momentos, história, jornada e melodias com molecagem lembrando Beatles de A Hard Day’s Night. E ”K-Horse” fecha tudo soando como o post-hardcore da sua outra banda Glassjaw. Ainda como bônus, temos a música Beating Heart Baby do primeiro disco da banda com uma mixagem da lenda Chris Lord Alge.

Pesquisando sobre o contexto do lançamento desse disco em 2006, o Popaganda recebeu reviews mistos na época. Vi que teve gente que amou e teve gente que reclamou do vocal e da “falta de hooks”, o que é uma piada, porque o Popaganda é basicamente só hooks. Uma crítica que li diz que alguns momentos o disco se apoia demais nas suas influências sem levar as influências pra um lugar totalmente novo. Acho ok, é uma expectativa que eu não tenho em música. Não levar influências pra um lugar totalmente novo nunca me incomodou. Às vezes você não precisa reinventar a receita de feijão com arroz. Você só precisa fazer um arroz com feijão muito, muito bom.

Vinte anos depois, o Popaganda continua com a mesma pureza de propósito. Um disco que só quer que você dance, que você cante junto, que você não consiga tirar aquele refrão da cabeça no dia seguinte. O que aquele blog não precisou descrever pra mim na época, fiz aqui agora pra vocês. Não tem mais .Zip pra baixar, mas tem um link aqui em baixo pra ouvir agora mesmo.


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