
Uma das coisas mais gratificantes do trabalho de pesquisa que se faz para escrever sobre algo (e é cada vez mais imprescindível buscar conhecimento sobre algo que se pretende descrever e recomendar nestes tempos em que os padrões são empurrados goela abaixo tal qual um comprimido de algum medicamento fajuto) é a chance de descobrir novas nuances sobre algo que já conhecemos. Me recordo bem de ter tido a oportunidade de ouvir Endtroducing… DJ Shadow sem nunca ter atentado para seu caráter revolucionário, que só recentemente percebi.
Uma das coisas a se observar é que Josh Davis, a pessoa por trás da persona DJ Shadow, era um sujeito de seus 23 anos na época do lançamento de seu álbum de estréia, em 1996. Considere que o cenário musical da época vivia o pós-grunge e a efervescência de um britpop razoavelmente consolidado. No mesmo ano, o Korn lançava seu segundo álbum Life is Peachy, o Sepultura estourava de vez com o álbum Roots e implodiria ainda no mesmo ano. O Metallica, aparentemente cansado de seu nicho, vinha firme no propósito de fingir ser quem não era (ou não ser quem era) com seu inusitado Load. O Manic Street Preachers tentava seguir em frente sem contar com o pitoresco integrante Richey Edwards, desaparecido para sempre e simbolizado em um disco que pregava que tudo deveria seguir, o emblemático Everything Must Go.
No meio desta efervescência do rock em várias vertentes, seria normal que um jovem como Josh resolvesse comprar uma guitarra e um amplificador, mas ao invés disso ele comprou discos. E assim nasceu o primeiro álbum da história composto totalmente de samples, um feito registrado no Guiness Book em 2001.
É curioso e fascinante observar a lista de samples presentes no álbum e encontrar ali cruzamentos improváveis, que unem Nirvana, Metallica, Stanley Clarke, Giorgio Moroder e Beastie Boys, por exemplo, mas há que se notar que a colagem não é aleatória nem desproporcional. As faixas são dotadas de sentido e propósito.
O disco foi lançado originalmente pela Mo Wax Records, mas em 2005 a Island promoveu um relançamento com alguns bônus, e o disco pareceu ter sido lançado exatamente ali. Ouça este disco pensando nos anos pós-pandemia, em que começos e finais se confundem em um loop. Poderia ser lançado hoje, com o mesmo título, que é o fim e o começo (endtroducing, no sentido de introdução final). Ele continua fazendo sentido. Assim são as obras-primas.
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