Cadê as notas que estavam aqui?

Lançado em 1994, Da Lama ao Caos, álbum de estreia de Chico Science e Nação Zumbi, é uma revolução sonora sem paralelo no rock nacional.

É difícil de acreditar que Chico Science não chegou a viver o século 21.

Lançado em 1994, Da Lama ao Caos antecipou uma revolução sonora no rock nacional, muito mais do que alguns de seus contemporâneos (exceção para o Mundo Livre S/A, de seu parceiro Fred Zero Quatro, que lamentavelmente não teve a mesma exposição, mas segue firme em seus propósitos).

A começar pelo Monólogo ao Pé do Ouvido, uma carta de apresentação sonora embalada pelos tambores e alfaias, que minimiza a ausência de notas musicais, desde que o som seja confortável aos ouvidos, e afia o manifesto deixando claro o posicionamento. Será que hoje em dia pediriam ao Chico que ele evitasse falar de política?

Embora o mote seja a revolução ritmica, as notas estão presentes, sim, muito por responsabilidade das guitarras de Lucio Maia, com timbres também inovadores e que fazem contraponto com a parede construída por percussões.

A Cidade, o grande sucesso radiofônico do disco e da banda é duplamente hit, já que – sem créditos – foi citada em Xibom Bom Bom, megasucesso do grupo de axé As Meninas, de 1999.

Rios, pontes e overdrives, com autoria de Chico e Fred Zero Quatro guarda em si uma polêmica: o cantor e músico Otto, ex-integrante do Mundo Livre S/A, alega ser co-autor da música, uma vez que Chico cita na letra vários bairros locais de Recife, que faziam parte de um jingle de uma campanha para prefeito, escrita por Otto e cantada pelo líder da Nação Zumbi,

Contando ainda com músicas emblemáticas como a faixa-título e também A Praieira, com a frase-sensação “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”, Da Lama ao Caos apresentou o mangue ao mundo, e foi sucedido por Afrociberdelia, um pouco mais superproduzido, e a Nação Zumbi seguiu em frente após a morte de Chico Science, num trágico acidente de carro em 1997.

Há que se falar em um legado de Chico Science, é claro, mas ao mesmo tempo, me questiono se há, após o lançamento deste disco, um paralelo em termos de revolução sonora. Assim, de pronto, imagino que não.

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