
O mundo está cada vez mais estranho. A gente passa o dia desviando de interrupções que tentam prender nossa atenção. É notificação, vídeo curto, rede social, likes, brigas, tretas, rage bait, AI, comentários e um monte de coisas que fazem de tudo pra se tornarem fundamentais para se viver. A internet está sempre empurrando pra gente uma pequena dose de dopamina. E o Fontaines D.C. resolveu transformar isso em música.
Dopamine Chamber é o quinto disco da banda irlandesa e mostra uma banda um pouco mais distante do pós-punk que marcou seus primeiros trabalhos. Depois do excelente Romance, de 2024, a banda parece confortável em explorar uma sonoridade mais atmosférica e cheia de sintetizadores. É uma evolução que me pareceu natural.
O disco tem uma mistura interessante de melodias acessíveis com uma atmosfera meio sombria e até gótica dos anos 80. “Marianne” é um ótimo exemplo. A música tem apelo pop, mas tem esse sentimento musical de desconforto que acompanha o disco. Já “Demolition” mostra que a banda ainda sabe trabalhar com guitarras mais pesadas e distorcidas. Confesso que não sabia da participação da Rosalía em “Where Is Gone?” e foi uma belíssima surpresa. A música é ótima. É uma colaboração meio aleatória, mas acho que combinou bastante com o conceito do disco.
O que achei mais interessante em Dopamine Chamber que é um disco que parece uma timeline de rede social com vários tipos de humor. É a representação da nossa relação atual com a internet e o entretenimento. Se a gente não sente nada em 3 segundos é hora de pular. Ficamos nessa busca infinita por horas por alguma coisa com significado e quando menos percebemos, ficamos 1 hora empurrando a tela pra cima sem ter visto nada.
O Fontaines D.C. poderia continuar fazendo aquele pós-punk que conquistou tanta gente, mas parece muito mais legal descobrir até onde a banda consegue chegar. Dopamine Chamber é um disco bonito, estranho e bastante atual. Em um mundo que parece funcionar cada vez mais no automático, ainda bem que existem bandas que conseguem transformar os sentimentos atuais em em música.
Assine nossa Newsletter e receba os textos do nosso site no seu email



