
Tem um tipo de música que não pede atenção. Ela simplesmente aparece. Não chega anunciada por campanha nas redes sociais, não tem clipe com diretor badalado e não tem refrão construído para o algoritmo. Ela chega como aquela pessoa na fila do mercado que faz um comentário sobre o tempo e quando você percebe, já está conversando sobre a vida com um desconhecido. “Gospel Irônico”, novo disco do Giancarlo Rufatto, é exatamente essa pessoa.
Rufatto grava há muito tempo e já passou por projetos como Lo-Fi Dreams e pela banda Hotel Avenida, e construiu uma carreira inteiramente fora dos holofotes, acumulando uma dezena de discos que, como ele mesmo diz, “pouca gente ouviu”. Eu gosto desse humor, só que o que ele não diz é que quem ouviu provavelmente não esqueceu.
Em “Gospel Irônico”, ele gravou tudo em casa, com barulhos da rua e cachorros latindo ao fundo. Tem algo muito bonito na imperfeição dessa escolha. Num mundo onde todo home studio virou uma pastelaria de grid perfeito que já soava como AI antes da música de AI existir. Aqui o Rufatto gravou o seu disco como quem escreve uma carta à mão. Com todos os chiados e imperfeições e marcas de borracha de uma carta real e cheia de sinceridade. O disco tem oito músicas e trinta e cinco minutos. Não sobra nada e não falta nada.
A faixa de abertura, “São Paulo, sete horas da manhã”, já mostra o tipo de disco que estamos entrando de cabeça. Tem mais de seis minutos, não tem refrão, e descreve um dia comum de quem mora numa cidade grande demais. É uma música anti-algoritmo de contra-cultura num disco que já escolheu seu ouvinte. É um disco de curadoria e nada automatizado.
O título “Gospel Irônico” é bem humorado. Ele não escreve sobre religião, mas flerta com a culpa cristã. A ironia não é deboche. É a ironia de olhar para uma cruz de neon verde na fachada de uma igreja como se fosse o neon de um restaurante retrô.
Musicalmente, Rufatto usa a simplicidade pra sua identidade sonora. Um som folk, indie e completamente seu. As referências que aparecem são Neil Young, Wilco e Bruce Springsteen.
“Eu nunca fui um Rolling Stone” é talvez o momento mais forte do disco. “O único poema que escrevi” caminha na mesma direção, mas com uma delicadeza diferente. Rufatto não se poupa da auto depreciação bem-humorada, o que torna tudo mais honesto e mais difícil de ignorar.
“É só o tempo”, que fecha o disco, amarra tudo com a calma de quem não tem mais pressa de provar nada. É uma boa despedida. Nessa conversa inusitada na fila do mercado, é a hora que você troca as arrobas do Instagram com aquela pessoa, pra quem sabe um dia, ter mais conversas boas como aquela. É o “bora marcar!”, mas sem ser o bora marcar do carioca.
“Gospel Irônico” soa como um artista que conhece seus caminhos e decidiu trabalhar dentro deles. Os chiados são parte da música. Os erros que ele deixa passar são parte da verdade das letras. Um monte de canções sobre imperfeição que não precisam ser lapidadas.

Pra quem ouvir uma vez e achar que não tem muito a oferecer, tente de novo. De preferência sem fazer outra coisa ao mesmo tempo.
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