
Que a mídia especializada na música está em crise todo mundo já percebeu. O texto do Vinícius Cabral sobre o paywall da Pitchfork faz uma análise muita boa sobre esse tema. Eu vou levar essa reflexão para outro caminho. A crítica foi por muito tempo o gatekeeper das nossas considerações de compra. No dinheirinho contado que eu juntava do recreio na escola, era pra comprar algum CD, mas eu precisava que o tiro fosse o mais certeiro possível.
Nem todas as vezes acertei, mas com o CDzinho em mãos, não tinha mais escolha. Ou eu gostava ou aprendia a gostar. Mesmo não gostando de cara de um determinado lançamento, dedicava meu tempo livre pra tentar entender aquela obra. Mesmo sendo um adolescente que achava que sabia de tudo, nem percebia que aquilo estava expandindo meu gosto musical de alguma maneira.
Hoje, revisitando alguns desses discos que não gostei de cara, amo sem questionamentos. Talvez, a crítica tivesse esse papel de filtragem. De certa forma direcionar e influenciar o gosto das pessoas. Algumas vezes cheias de soberba e pedantismo. “Se você não gostou, você não entendeu”. Todo mundo já leu ou ouviu essa frase em alguma rede social perto de você. Talvez esse pedantismo do passado não tenha se adaptado bem aos dias de hoje. Ninguém mais quer ler gente falando que só existiu música boa de 1986 pra trás.
Hoje, com a música praticamente “de graça”, ninguém mais espera ler uma crítica pra tomar a decisão de dar play em alguma coisa. É muito mais fácil e rápido simplesmente ouvir o disco assim que der meia noite e depois ler as críticas para validar o seu gosto ou você passar raiva. Quando a Pitchfork dá uma nota baixa para um disco que todo mundo curtiu, é uma chuva de reclamações, mas quando a perspectiva é de quem também não gostou do disco, as pessoas comemoram que a Pitchfork do Velho Testamento voltou. É validação versus discordância.
Isso fica ainda mais acentuado no que eu chamo de “crítica moderna”. Os famosos vídeos de Reacts. Uma dupla de amigos que só escutavam Hip Hop, passando a amar Gojira e reagindo a Heavy Metal. Vocal coaches analisando cada frase da música e as técnicas de voz de quem está cantando. Guitarristas tirando a música na hora e falando sobre as teorias e escalas das músicas. Dentro do mundo dos reacts, existem vários nichos.
Uma crítica escrita é um recorte de uma impressão no contexto do momento. Muitas vezes, não há espaço para mudar de ideia. Aquele review ficará lá pra sempre. Uma resenha é uma crônica dos sentimentos e contextos. É uma anedota filosófica da arte e os sentimentos humanos. É pensado. Editado. Alterado milhares de vezes antes de apertar “publicar”.
Já o React é diferente. Não tem que pensar. As pessoas assistem pra ver o brilho nos olhos, ouvir um “hum! ui! Caralho! Para Para! Preciso voltar essa parte!”. Pra quem conhece a música, é tentar reviver a experiência de ouvi-la pela primeira vez. Ainda mais se for um clássico. Nas músicas novas, talvez entender nas explicações porque se gostou daquilo. É a opinião rápida, didática, simples e dinâmica da internet. É a validação instantânea. Gera comentário e debate. Você sugere outra música pro criador de conteúdo reagir. Se não gostou da reação, já ataca ali na hora. Tem rosto.
Eu particularmente acho um tiro no pé esse Paywall da Pitchfork, junto com o paywall da Stereogum. Pra mim soa como o prego no caixão da crítica. Fazer gatekeeping de nota e número de review que se pode ler por mês não gera comunidade e debate. Entendo o lado comercial da coisa. Mas será que as pessoas não estão mais dispostas a dar 1 dólar por mês pro seu criador de react favorito (alguém que tem rosto, carisma e uma relação direta com a audiência) do que 5 dólares pra uma publicação? É empresa versus indivíduo. Será que pagar 5 dólares por mês pra dar sua própria nota e comentar no review e poder ler tudo é o caminho?
Acho que a Pitchfork vai fazer ajustes ao longo dessa novidade. Veremos o que vai acontecer.
Pra mim a crítica precisa se adaptar. Gerar curadoria. Estamos falando aqui no Silêncio no Estúdio sobre curadoria há pelo menos 8 anos. Sem soberba, sem os favoritos da crítica (ler mais sobre aqui). Sem gatekeeping. Curadoria é sobre personalização. Cada um dos integrantes aqui do site tem gostos diferentes com algumas coisas em comum. E seguiremos assim.
E que 2026 seja o ano da curadoria. Vamos fazer o melhor que podemos.
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