Os Beatles como banda em Let It Be… Naked

O que acontece quando você tira todos os enfeites de um clássico dos Beatles? "Let It Be... Naked" prova que menos é mais.

Tem uma coisa estranha em tirar suas máscaras pra outras pessoas. É aquele momento em que você percebe que a outra pessoa te vê de verdade, sem os filtros, sem os personagens que você escolheu para parecer mais legal, mais interessante ou mais carismático. É vulnerabilidade pura. Foi mais ou menos isso que Paul McCartney fez em 2003 quando finalmente lançou o “Let It Be… Naked”.

Em 1970, os Beatles já tinham implodido. John queria Yoko, Paul queria controle, George queria respeito e o Ringo só queria que todo mundo parasse de brigar. O disco “Let It Be”, que era pra ser o filme documentário “Get Back” da banda voltando às raízes (que finalmente vimos a versão do Peter Jackson), virou outra coisa completamente diferente.

Phil Spector, o (lamentável/pessoa horrível) produtor com ego do tamanho do seu famoso “Wall of Sound”, pegou as gravações e decidiu que aquilo precisava de pompa. Cordas! Coros! E Drama! “The Long and Winding Road” ganhou uma orquestra inteira que soa como um filme épico melodramático em câmera lenta. É bonito? Sim. É o que os Beatles queriam? O Paul McCartney passou anos dizendo que não.

Então em 2003, com Phil Spector ocupado sendo o Phil Spector (essa é uma história para outro artigo mais sombrio), o Paul McCartney finalmente teve sua chance. “Let It Be… Naked” é exatamente o que o nome promete. As músicas despidas de todos os overdubs, remixadas para soar como os quatro Beatles tocando juntos numa sala (assim como vemos no filme de 2021). E justamente acontece o esperado. O disco ficou cru, direto, real e cheio de imperfeições que faz ele ser mais perfeito.

“The Long and Winding Road” sem aquela orquestra melodramática é praticamente outra música. A voz de Paul soa verdadeira, como alguém que realmente perdeu algo. Não precisa de violinos te dizendo para se sentir triste. É a diferença entre alguém te contando que está triste e alguém realmente chorando na sua frente.

“Across the Universe” aparece numa versão mais lenta que parece John Lennon flutuando no espaço, sozinho com seus pensamentos. “Let It Be” perde aquele solo de guitarra regravado e pomposo, ficando com algo mais simples e honesto.

Pra mim o Let It Be.. Naked é a versão definitiva. Mas aqui aí que vem a questão. O “Let It Be… Naked” não cancela o original. Ele existe ao lado dele. É como ter duas fotos do mesmo momento. Uma com filtro do Adobe Lightroom retrô e outra versão sem edição. Ambas são válidas. Ambas contam algo diferente sobre o mesmo momento.

Quando escuto “Let It Be… Naked”, penso nas coisas que eu poderia ter simplificado, mas escolhi enfeitar. O Paul McCartney esperou três décadas para recontar essa história do jeito que queria. 

Ainda bem.


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