
Cuidado com quem coloca os dedos em sua banda favorita. Ou melhor, cuidado com quem coloca os dedos no disco novo de uma banda que pode vir a ser a sua favorita.
Aos corajosos que permitem que os olhos passeiem pela crítica sem filtros de bom senso, se deparar com notas de rodapé associando The Rasmus como um possível som para fãs de My Chemical Romance é um daqueles casos de procurar o autor e chicoteá-lo com fitas K7 recheadas de gravações feitas em rádio FM com o locutor falando no meio da música.
(Para preservar a saúde musical e mental dessa audiência, não cometerei o desprazer de fazê-los sangrar pela retina diante de tal texto).
Em seu disco de número 11, os finlandeses capturaram um intervalo atmosférico com o melhor que aconteceu entre o Hide From The Sun, o Black Roses e o homônimo The Rasmus e conceberam um ousado porém acessível Weirdo.
Ousado por lançar uma rede corajosa num mar de obviedades e resgatar a versão do rock que eles sempre quiseram fazer. Foram 3 anos, desde Rise, puxando as correntes até o resultado vir à tona com muito fôlego — o que ficou perfeitamente claro nas primeiras 3 faixas lançadas antes da versão completa.
“Creatures of Chaos”, “Break These Chains” e “Rest in Pieces” já acertam no rock de arena modernizado, com Lauri em seu timbre característico, a bateria criativa/marcante de Aki Hakala, o baixo e o carisma dourado de Eero Heinonen e a guitarra refrescante da indispensável Emppu Suhonen. Até aqui já era muito mais promissor que os últimos lançamentos da banda e causava aquela perigosa expectativa do nível se manter na mesma altitude de cruzeiro.

Aí conhecemos “Dead Ringer” e percebemos que o melhor ainda estava por vir. Se os pulmões se encheram até 80% de capacidade antes, agora a voz se obriga a sair diante do cativante inevitável. Não sei até onde Desmond Child colocou seu feitiço entre as 10 canções, mas na número 4, ele definitivamente sussurrou a melodia do hit.
O nome do álbum vem em seguida e mantém a mágica do cante junto até enjoar. O dueto com Lee Jennings do Funeral Portrait faria os sinestésicos sentirem um som roxo, a própria estética desse material, com uma beleza triste confessional irresistível. Música pra virar hino de show, tempero de lágrimas e demais reações na mesma esfera de “Sail Away” ou “Justify”.
“Banksy” cumpre o papel de retomar o ritmo e acaba fazendo mais do que isso: ao lado de Lauri, temos a Emppu soltando a voz e mostrando um caminho interessantíssimo a ser explorado em apenas dois minutinhos e quarenta e sete segundos. É o suficiente pra abrir um sorriso sincero.
As rugas de expressão por tamanha alegria se expandem na radiofônica “Love Is a Bitch” que começa num assovio que fãs de pop arrepiam e descortina num refrão de bater coração e cabeça. Quem costurou esses universos usou uma agulha de ouro.
Faltava a balada que carregasse o jeito oitentista de soar e ela veio com “You Want It All”. Moderna, sim. Mas as raízes dos grandes ícones do estilo remontam a melodia das frases nos lembrando que quem não chora não ama. Escolha essa para qualquer um desses verbos.
“Bad Things”? Eu usaria pra abrir os shows da turnê. Para adoradores de composição, percebam que a ponte é o ponto alto da música, deixando o refrão soando como um complemento. No fim, a impressão é que se tem dois grandes momentos pra se envolver numa só canção. Eu sei que você está aí, Desmond. Eu sei.
“I’m Coming For You” segue um roteiro da banda em suas faixas finais e talvez isso tenha sido proposital para mostrar um fio condutor de sua identidade. Uma pegada mais reflexiva, quase contemplativa, soando como um momento para se despedir de tudo o que foi vivido até aqui pela perspectiva do disco. O abraço antes do ônibus da realidade passar e nos levar para o cinza da vida.
Até então tudo era roxo.
E era bom.
Weirdo é o estranho virando elogio.
Na verdade, talvez sempre fosse.
Ouça na sua plataforma favorita
Assine nossa Newsletter e receba os textos do nosso site no seu email



