Nick Cave e o uso de imagens de IA de artistas mortos

A inteligência artificial pode fascinar, mas também pode desrespeitar. Quando a imagem de quem já se foi vira animação sem propósito, o encanto vira ruído.

Pra quem é de newsletter, provavelmente já se deparou com a newsletter do Nick Cave. Conhecido cantor e compositor, ele costuma colocar suas dores, críticas e observações sobre a vida em seu “blog” em formato de e-mail constantemente. Em uma dessas edições, ele fez o teste e pediu pro ChatGPT escrever uma letra de música como se fosse ele mesmo. Em seu texto, ele criticou o uso de IA (inteligência artificial), dizendo que aquilo era o fim dos tempos.

“Era como se fosse uma paródia grotesca do que é ser humano.”, disse. Mas não é que ele mudou de ideia? Antes mesmo de dizer seu novo pensamento, já prontamente escreveu que uma das grandes qualidades do ser humano é mudar de ideia. Mas sobre o que e como ele mudou de ideia?

Seu amigo Andrew Dominik, parceiro de longa data e diretor, fez um videoclipe em homenagem aos 40 anos da música “Tupelo”, do Nick Cave & The Bad Seeds, usando versões em IA do Elvis Presley. Essa versão animada de fotos antigas e imagens do Elvis é descrita por Nick como uma proposta de qualidade incrível. É como se ele tivesse ressuscitado da crucificação. Chocante, mas ao mesmo tempo extremamente fascinante. Nick e sua esposa, Sue Cave, ficaram de cara, e com essas imagens, sua ideia sobre IA mudou. Segundo o próprio diretor, IA é apenas uma ferramenta como qualquer outra.

Assista ao clipe abaixo (por sua conta e risco):

Se tem uma coisa que eu concordo com o Nick, é sobre a qualidade de se mudar de ideia. Realmente, o ser humano está sempre buscando a verdade, e a teimosia atrapalha em nossa própria evolução. Mudar de ideia é realmente uma qualidade que admiro demais nas pessoas. Mas meu ponto de conversão com o Nick acaba por aí. Com o Andrew, eu também concordo que AI é uma ferramenta como outra qualquer, mas também paro por aí.

Em julho de 2023, um comercial em comemoração aos 70 anos da Volkswagen no Brasil foi lançado usando uma versão em IA da cantora Elis Regina dirigindo e fazendo um dueto com sua filha, Maria Rita, cantando “Como Nossos Pais”, do Belchior. Muita polêmica e debates foram parar nas redes e no mundo da publicidade sobre o uso da imagem de pessoas mortas.

Imagem do comercial da Volkswagen

O Type O Negative, banda clássica de metal dos anos 90, lançou um clipe todo feito por IA com ilustrações da música “Halloween in Heaven”. Aprovado pela banda, menos por seu líder Peter Steele, que morreu em abril de 2010, o clipe, feito com ilustrações animadas, mostra artistas como Dimebag Darrell, do Pantera, John Bonham, do Led Zeppelin, Bon Scott, do AC/DC, Jimi Hendrix, o Elvis (novamente) e John Lennon. Todos falecidos.

Trecho do clipe do Type O Negative com John Bonham de AI

Usar imagens de pessoas que não têm mais o poder de decisão se querem fazer parte de um clipe ou de um comercial é muito delicado e ao mesmo tempo cruel. Pessoalmente, eu sou contra. Uma animação de uma foto não é real. Eu não me emociono. Não me toca. Aquilo são códigos de imitação simulando o que “poderia” ser. Mas isso é um debate tão grande que nem vou começar meu rant aqui sobre isso.

O que me deixa mais triste na história do clipe feito com IA do Nick Cave é que o clipe é tosco. É uma IA feita sem propósito. Animar fotos é tão raso quanto um pires. São animações de pessoas que nunca nem ouviram a música do Nick. A prazer de quem? Qual é a mensagem? É perverso, preguiçoso e de muito mau gosto.

E a pergunta que fica no ar: se um artista do futuro fizesse um clipe animando fotos do falecido Nick Cave, o que ele iria achar? Certamente faria um texto na sua newsletter espiritual destruindo a pessoa que teve essa ideia de merda.


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